sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Guardião de fios, Waldemar de Oliva Brandão


“Se a gente consegue expressar com toda a felicidade a sua
infelicidade, já não será tão infeliz”.
(Mário Quintana)

Dali do banco da praça onde estava sentado naquela
preguiçosa tarde de segunda-feira, Cassiano podia ver atrás
do jardim o moderno prédio dos Correios ao fundo. O
velho guarda-fios aposentado arregalou os olhos. Fixou-os
por alguns instantes na placa com letreiros e símbolos
gráficos superpostos. Intrigou-se com a sensação de vista
embaçada que o impedia de visualizar com nitidez a imagem
projetada. “Que diacho será aquilo?”, se perguntou. Se não
fosse a vista cansada, só podia ser a miopia, ou a catarata
que chegava.
Nem uma coisa nem outra, constatou depois de algum
esforço visual. Tal qual o Miguilim do Mutum, de repente
descobriu o segredo que se escondia naquela paisagem de
imagens opacas. Por baixo da letra E de ECT, pintada
recentemente em cor viva, se escondia um D roto, semiapagado.
Era sim, sô, a letra inicial da sigla do antigo
Departamento dos Correios e Telégrafos em que trabalhara
por trinta anos como servidor exemplar. Não deu
importância ao fato, resultante talvez da inépcia de algum
operário relapso, pensou. Certamente, ao pintar a fachada,
se esquecera de apagar a letrinha velha antes de, em seu
lugar, colocar a inicial da nova sigla da empresa.
Enquanto sua mente se ocupava com tais prosaicas
reflexões, uma leva de pombos - que costumavam se alojar
no telhado do prédio - revoou em retirada, distraindo a
atenção do espectador. Sob seu olhar solitário os pássaros
se afastaram pouco a pouco, até se perderem no infinito
do céu azulado, rumo a alvo desconhecido, como que
fazendo o pensamento do ex-guarda-fios voar para antigas
vivências, enriquecidas de velhas sabenças.
Lembranças do passado. Cassiano retrocedeu seis
décadas no tempo. Histórias de aventuras solitárias. Nos
caminhos ermos, postes de telégrafos caídos, fios rompidos,
comunicação interrompida para cidades, vilas e povoados.
Esse fora seu trabalho durante muitos anos: proteger os
fios do telégrafo – única forma de comunicação a distância
disponível até a metade do século passado naqueles grotões.
Era preciso vigiar, guardar, preservar as linhas telegráficas,
conservá-las intactas, de modo que as mensagens em código
morse pudessem transitar por elas sem interrupção. Daí o
nome guarda-fios, que Cassiano cultivava com orgulho.
Correr a linha (cavalgar ao longo das linhas
telegráficas, fazendo uma espécie de inspeção preventiva)
constituía a essência da sua rotina de trabalho, que mais
parecia corrida obstinada para reerguer postes, remendar
fios, consertar isolantes. A parte mais difícil eram as
chamadas de emergência, a qualquer hora do dia ou da
noite. E o guarda-fios tinha que estar sempre de prontidão,
em regime de plantão permanente. Como aconteceu
naquele dia.
Vila pacata, em Contendas ninguém importunava
ninguém altas horas da noite. Por isso, naquela madrugada,
assim que despertou com o primeiro espocar de palmas,
seguido do usual toc-toc na porta da frente, Cassiano pulou
da cama. Antes mesmo de ajeitar no corpo o pijama e
calçar o chinelo, apressou-se em abrir a janela para - meio
corpo dentro de casa, meio corpo projetado para a rua –
cumprimentar seu fiel escudeiro Ramiro, que há anos o
auxiliava na tarefa de percorrer o trecho. Nesses casos, era
sempre ele o primeiro a ser informado pelo agente de
telégrafo Paulo Preto – o Pepê – sobre os defeitos detectados
nas linhas de Correio. Sábia medida, já que cabia ao
ajudante preparar as montarias para a dupla jornada – o
que ele fez mais uma vez com a habitual presteza.
Antes de montar seu pangaré sonolento na escuridão
da cidade iluminada apenas por lampiões e lamparinas,
um Ramiro impaciente – que mais parecia o Sancho Pança
dos sertões – mal teve tempo de responder ao cumprimento
de Cassiano. Preocupou-se somente em apressá-lo para a
saída. Afinal, era época de eleições, e Contendas não podia
ficar sem comunicação telegráfica – exigia o juiz da
Comarca. Para adiantar, trouxera os dois cavalos arreados.
Faltava apenas o embornal com as marmitas de paçoca
recheadas de carne seca, rapadura e farinha, que Dona
Ernestina depressa preparou no fogão de lenha, à beira do
qual aproveitou para quentar o corpo e esfregar as mãos
frias. Já acostumada com as repetidas tarefas noturnas
impostas pela profissão do marido, jamais reclamava. Afinal,
era assim que Cassiano garantia o sustento da família –
ele, a mulher e os oito filhos. Só não eram nove porque
um morrera há algum tempo, ainda menino, na queda
que se seguiu ao galope de um potro bravio.
Madrugada fria, lá se foram os dois cavaleiros
escuridão afora. A protegê-los, a medalhinha de Nossa
Senhora presa ao pescoço de Cassiano – presente da esposa
devota – e o fiel cachorro Ideal. Não demorou para que os
animais, mais pés-duros que marchadores, com seus
sacolejos começassem a maltratar o traseiro dos viajantes.
Ainda bem que não foi preciso mais que a metade do dia
sobre o seu lombo. Logo Cassiano e Ramiro descobriram a
causa do defeito na linha: um poste tombado, dois grossos
fios sobrepostos um sobre o outro, brecando a passagem
dos sinais de morse que, vindos da capital e de Santana do
Rio Verde, tinham como destino final a agência postal de
Contendas, antes de se ramificarem para outros povoados,
vilas e distritos.
Sorte maior: o lugar não era de mata fechada nem de
grotas, como cansaram de enfrentar incontáveis vezes, em
mais de trinta anos de lutas e labutas naquelas veredas
perdidas do sertão. Terreno plano, vegetação rala e rasteira,
árvores baixas e retorcidas, o único fator que dificultava o
trabalho de reparo na linha era o chão encharcado e a
lama deixada pelo temporal do dia anterior, cujo ímpeto
não só balançara o poste e fizera tombar os fios, mas
espalhara rastro de destruição e medo nas redondezas.
Experientes na lida, o velho guarda-fios e seu
companheiro procuraram chão seguro onde pudessem
manusear as ferramentas para os reparos na linha de
transmissão. Operação habitual, mas que nem sempre podia
ser concluída com a urgência que os telegrafistas postados
nas pontas esperavam. Enquanto iniciava essa empreitada,
o velho Cassiano lembrou-se com amargura e tristeza da
última desdita.
Acontecera há exatos três anos. Trepado no galho
mais alto do angico, ele se preparava para emendar as
pontas de um fio que se romperam. De repente, forte
ventania apoiada na escuridão da noite de lua nova
derrubou-o ao solo com a força de tormenta, fraturandolhe
uma das pernas. Pior que as dores e a longa
convalescença, só a ameaça da morte. Não dele, mas de
uma criança cuja sobrevivência dependia do pleno
restabelecimento das linhas telegráficas que ligavam
Contendas às demais cidades e povoados.
Internado em casa de saúde de Alterosa, a capital
para onde fora levado após contrair grave moléstia, Mazinho
tinha apenas dez anos de idade. Na cidade natal, ganhara
a admiração e o respeito de todos pela dedicação aos
estudos e a abnegada vocação para o trabalho de engraxate,
função que exercia nas horas de folga da escola com brio
e alegria. Filho de humilde, honrada família, oscilava agora
entre a vida e a morte preso ao leito. Só transfusão com
sangue de seu irmão gêmeo seria capaz de salvá-lo –
disseram os médicos. Mais que aflição, angústia: avisar com
urgência os parentes no interior passou a ser obstinação
da mãe, que no quarto sombrio do hospital acompanhava
aos prantos a agonia do filho.
Enquanto isso, lá nos cafundós do sertão – onde o
Judas perdeu as botas, diziam sem soberba os moradores
– o equipamento de morse mantinha impassível e criminoso
silêncio na pequena sala da agência dos Correios. As horas
se esvaíam, sem que mais nada pudesse ser feito para
salvar a vida do menino. Enviar da capital carro para buscar
o irmão, nem pensar – a viagem de ida e volta demoraria
demais, por causa das estradas que mais pareciam picadas
abertas no meio do mato.
Luta contra o tempo, só havia uma saída: despachar
para Alterosa sem retardo o irmão gêmeo de Mazinho no
pequeno caminhão de Quinquinha – êta fordinho bigode
arretado! – único da região acostumado a esse tipo de
aventura. Esperança a que se agarraram os familiares do
menino na capital. Olhos grudados no relógio, viam os
ponteiros avançarem até o limite de tempo concedido pelos
médicos. Só lhes restava aguardar a notícia do
restabelecimento da linha do telégrafo. Que nunca chegava.
Distante dali, no meio do mato, sem forças para se
manter de pé, prostrado ao solo na beira da estrada, o
guarda-fios Cassiano, indiferente ao seus próprios
ferimentos, pedia ao ajudante Ramiro para fazer com
urgência os reparos na linha telegráfica. Em ocasiões
anteriores, como o conserto demorara e a cidade fora
privada de comunicação por muito tempo, muita gente
reclamou. Por isso, ficasse para depois o socorro médico.
Que a tíbia fraturada esperasse um pouco mais.
Paralisado pela dúvida, Ramiro ainda pensou em acatar
a ordem do seu Dom Quixote. Ajudaram-no a tomar outra
decisão os fortes gemidos de dor que, apesar do esforço, o
parceiro não conseguia dissimular. Ademais, ele sabia,
Cassiano não era de frescura, mas homem provadamente
vigoroso, destemido e forte. Com alguma dificuldade,
Ramiro alçou-o à garupa do animal (arre, alazão!) e rumou
para o povoado mais próximo, em busca de socorro. Depois
voltaria a Contendas e buscaria ajuda para cumprir o resto
da missão. Antes de puxar a rédea do cavalo, ainda olhou
para cima e pôde contemplar no céu nublado os fios caídos
que tornavam impossível a transmissão das mensagens
telegráficas vindas da capital para aquelas desérticas
paragens, ou destas para qualquer outro lugar.
Dias depois, em casa, Ramiro mantinha-se recluso,
inconsolável. Na rua Direita, refeito da mudez temporária,
o telégrafo agora comovia a população de Contendas com
sua mensagem fúnebre. Incrédula, a cidade acompanhou
consternada a chegada do corpo e o calvário da família.
No cemitério, recostado à sepultura de um menino chamado
Geraldinho, o velho guarda-fios Cassiano não pôde afastar
do pensamento a inevitável comparação daquela cerimônia
com sua própria tragédia pessoal, vivida há alguns anos.
Ali, só ele podia avaliar o sentimento dos pais de Mazinho
e compreender a dor daquela despedida.

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