segunda-feira, 2 de novembro de 2020

CONSIDERAÇÕES SOBRE A EDUCAÇÃO NO BRASIL

Mensagem do professor José Mauro da Costa, idealizador e coordenador do 

LIVRO DE GRAÇA NA PRAÇA




Alô, pessoal.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE A EDUCAÇÃO NO BRASIL

 

 

"Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo" (Paulo Freire)

"Se você acha que a Educação é cara, experimente a ignorância" (Derek Bok)

"A crise da Educação no Brasil não é crise. É um projeto" (Darcy  Ribeiro)

 

Um projeto construído e mantido por todos os governos. Dela, a Educação, desdenham, corrompem-na,  humilham-na. Por estimativa do Banco Mundial, de 2018, o Brasil demorará 260 anos para atingir nível de leitura dos países desenvolvidos. Bem, estamos em 2020, então restam apenas 258 anos.

 

"O que me preocupa não é o grito dos maus mas o silêncio dos bons" (Martin Luther King)

 

Exemplos recentes comprovam o desdém, a falta de compromisso dos governantes. Chefe de  Governo destemperado, ministros despreparados. Cinemas, museus e teatros fechados, incendiados ou transformados em boates e agências bancárias. 

Vejam este  exemplo: a Imprensa Oficial de nossa MG, órgão secular, porque sadia e bem administrada(só pode ser por isso)recentemente virou fumaça com uma simples canetada governamental. Estupro cultural,  foi dito na época. 

 

"De tanto ver nulidades, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto"  (Rui Barbosa, discurso no Senado Federal, 1914).

 

A mim me honram os exemplos de ilustres escritores e educadores que  pensaram nas próximas gerações. Darcy, já citado (lembram-se dos Ciep's? ), Paulo Freire (ofendido pelo atual presidente), Monteiro Lobato (Um país se faz com homens e livros),Florestan Fernandes, Anísio Teixeira, Helena Antipoff  (cuidar de crianças e adolescentes com necessidades especiais).

 

                                                                         *

 

Há 520 anos nosso país é roubado, espoliado, campeia a politicagem malandra - exceções à parte. Desde a carta de Caminha  -  em que solicita certo "arranjo" ao rei de Portugal, nada mudou. Nestes tempos atuais os "arranjos" são desavergonhadamente acertados à luz do dia, com televisão a testemunhar nem um mínimo de compostura, a mostrar aos brasileiros os palavrões e descabidas propostas em reunião ministerial. 

Dos ex-ministros da Educação e da Cultura do atual governo prefiro não falar o que penso, em respeito ao leitor.

É, nós éramos infelizes e não sabíamos.  Agora sabemos.

 

"Esta terra ainda vai cumprir seu ideal" (Chico Buarque de Holanda, "Fado Tropical"). Ainda?...

 

                                                                            *

 

Artigo 208, parágrafo 2°, da Constituição da República Federativa do Brasil: "O não oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público,  ou sua forma irregular, importa responsabilidade da autoridade competente."

 

"Mentiram-me.  Mentiram-me ontem

e hoje mentem nova/mente. Mentem

de corpo e alma, completa/mente.

E mentem de maneira tão pungente

que acho que mentem sincera/mente

                           ...

E de tanto mentir tão brava/mente

constroem um país

de mentira

diária/mente"

(Afonso Romano de Sant'anna, "Que país é este?")

 

                                                                           *

 

Surge um novo presidente, a proclamar "A Constituição sou eu". Que tentativa insana, meu Deus! querer imitar Luís XIV ( "O Estado sou eu"), aquele tal rei sol, pervertido e obsceno.

E certos vassalos  de alto coturno a lhe bajular as botas. Se não, são perversamente defenestrados. "Ele manda, eu obedeço" assegurou o ministro de 3 estrelas, abdicando-se da autonomia que lhe conferem o cargo e a função. Tão cegos na subserviência que nem ousam observar que também esse "rei" está nu.  Por conta dessa vassalagem ninguém vê, não ouve, não fala, tal e qual aqueles três macaquinhos.

 

"Já não restam deveres para aquele cujo amor único é o EU, que se deleita no EU  e no EU repousa satisfeito"

(Bhagavad Gita, CAP. 15)

 

"Até quando, Catilina , abusarás de nossa paciência? Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa sua loucura?"

(Marco Túlio Cícero, no Senado Romano, 63a.C.)

 

A meu juízo, do que se precisa é o governo acabar com esse maniqueísmo, com esses sofismas.

E parar de discutir o que é certo ou errado fazer, evitar as chamadas "fake-news", as intrigas palacianas. E começar a dar o bom exemplo ao povo brasileiro. O presidente costuma fazer citações religiosas. Sugiro a S.Exa., com todo o respeito, reler em sua Bíblia, Mt 5,37 e 15,11.

 

                                                                          *

 

O princípio  da Educação é pregar pelo exemplo. Concretizar um sonho, um ideal.

Idealismo não é sonho.  Me digam: quanto basta o "Imagine" como Lennon  propunha? "Se tudo é  sonho, o sonho é nada" (Fernando Pessoa). Idealismo não se confunde com Ideologia política. 

Caros amigos : nós,  do Livro de Graça na Praça,  sonhamos e agimos. Lutamos o bom combate.

Altruisticamente. Pela Educação no Brasil. Pelo bem do Brasil. Por esta terra amada Brasil. Nosso  excelso exemplo de cidadania.  

 

                                                                          *

 

Esta é uma mensagem de despedida.

Não há necessidade de explicações.  Por motivos pessoais, lhes digo.

Cuidarei para que o blog permaneça ativo porque retornarei à origem - às praças  -  onde  tudo começou. 

Agradecimento é devido a todos, pelo convívio que fortaleceu o espírito de companheirismo  ("cum pane"). Mas impossível fazê-lo diretamente aos 286 escritores, às parcerias, aos inúmeros colaboradores e a um tantão de incentivadores. Faço-o, me permitam, por seus intermédio, recordando-me,  nestes 18 anos, de um por um, essa enorme rede do bem.

Por final, aproprio-me  -  e a ele me alio  - de trecho da música "Divina Comédia Humana", do inesquecível cantor Belchior, que tive a satisfação de conhecer  em Sobral, sua terra natal:

 

          "Ora direis, ouvir estrelas,

          Certo perdeste o senso

          E eu vos direi no entanto:

          Enquanto houver

          Espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer NÃO 

          Eu canto!"

 

 Fraternal abraço.

 

José Mauro, na primavera de 2020 em Belo Horizonte