sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Especialidades, Ronaldo Simões Coelho

– Seu nome, por favor.
– Emerenciano dos Prazeres Morais.
– Idade.
– 43 anos.
– Estado civil.
– Separado judicialmente.
– Naturalidade.
– Vertente dos Buritis.
– Vamos passar aos fatos. Qual a queixa principal?
– Um ronco.
– Tente relatar o que observou e fornecer o maior
número de dados possíveis.
– Parecia não haver nada de errado até duas semanas
atrás, mas de repente começou o barulho, uma espécie de
ronco, observado principalmente em locais silenciosos.
– Há antecedentes? Já procurou outros especialistas?
– Não. É a primeira vez que acontece.
– Posso começar o exame? Faço, então, o diagnóstico
provisório e as sugestões de tratamento.
– Perfeitamente.
– Como o senhor vai poder verificar, começarei pela
observação visual, seguida por apalpação, percussão,
ausculta e, se necessário, com colheita de algum material
para exames complementares. Faço, então, o diagnóstico
provisório e as sugestões de tratamento.
Após quarenta minutos o cliente é dispensado e
recomenda-se que volta dentro de uma semana.
A sala de espera continua repleta e os atendimentos
são feitos por ordem de chegada. O funcionamento se dá
de 17 às 22 horas. Após as 22 horas não se atende mais
ninguém e os interessados devem voltar no dia seguinte.
Uma semana depois ali está o Sr. Emerenciano, que
recebe relatório completo e minucioso de tudo o que foi
encontrado no seu rádio Philco. Sua maior surpresa foi a
conta recebida, onde constava a relação completa dos
diagnósticos e dos reparos, com os respectivos valores do
material gasto e da mão de obra. No final havia o desconto
de 77,23% e a garantia por 12 anos e 57 dias.
Aristolóquio Medarte está nesse ramo desde que voltou
da campanha na Itália, onde serviu na luta contra o Eixo
durante a 2ª Guerra, tendo participado da tomada de Monte
Castelo e sendo um dos pracinhas que permaneceu nos
campos de batalha durante os sete meses e dezenove dias
da campanha da FEB nos apeninos. Ao chegar à sua cidade
natal foi considerado como portador de neurose de guerra
e, em função do diagnóstico feito pelos psiquiatras militares,
tornou-se inativo.
Contando apenas 23 anos começou a trabalhar na
casa herdada de seus pais, utilizando toda a parte de baixo,
onde criou as condições para exercer suas novas atividades.
Tudo indica que se inspirou nos trabalhos de seu
antigo professor de física no ginásio, o frade holandês de
nome Felicíssimo, mais conhecido pelos apelidos com que
seus alunos o brindaram. Os veteranos o chamavam de
Petit-Chulé e os novatos de Tamancão. O fato é que o
bom frade se tornara conhecido como o homem dos sete
instrumentos, tendo a fama de ser capaz de consertar ou
reparar qualquer objeto. Consta que tendo morrido com
96 anos, deixou classificados, sem serem consertados nem
devolvidos aos proprietários – todos eles antigos alunos
internos do colégio – 413 relógios, 1355 canetas-tinteiro
(entre as quais havia cerca de 900 canetas Parker, metade
delas de ouro), mais de 200 ferros de engomar, 7 geladeiras,
além de outras coisas, como carrinhos de rolimã, tesouras,
cigarreiras, espingardas de chumbinho, velocípedes, óculos
e binóculos, lunetas e microscópios, aparelhos de surdez,
dentaduras postiças, patins e patinetes, brinquedos de corda
e de pilha, rádios, jóias, sombrinhas e guarda-chuvas, tapetes
persas, violas, violões, violinos, concertinas e gaitas, assim
como diversos outros instrumentos musicais, partituras,
aparelhos de barbear, cinzeiros, chuveiros elétricos, imagens
de santos, biscuits, brincos e muitas outras coisas mais.
Todo o material foi doado para a Santa Casa e
leiloado, revertendo o numerário obtido em compra de
cadeiras de roda, instrumental cirúrgico, esparadrapo,
seringas, algodão hidrófilo, iodo, uniformes e outros
materiais necessários ao bom andamento do venerável
nosocômio.
Aristolóquio tem ao lado da sala de atendimento uma
enfermaria-oficina, na qual exerce suas atividades entre as
dez horas da noite e cinco da manhã, quando se recolhe
para dormir durante 6 horas. Cada objeto é acompanhado
de uma papeleta, na qual estão anotados os dados obtidos
e os procedimentos realizados. Às 11 da manhã se levanta,
fica duas horas e meia ouvindo música e fazendo suas
próprias composições musicais e tocando saxofone e
trombone de vara em sala a prova de som. Em seguida
estuda línguas mortas até a hora de começar a atender os
fregueses.
Aristolóquio não tem vida social, mas envia suas
composições para a Sociedade de Concertos Sinfônicos,
que executa a maioria delas nas suas apresentações
semanais.
Certa vez um cliente lhe trouxe um gravador de som,
último modelo de gravação em fita da mais famosa empresa
do ramo no país europeu conhecido pelos seus diques. A
queixa se relacionava com pequeno ruído no momento de
se ligar o aparelho. Após uma semana, quando deveria
devolver o gravador a seu proprietário, pediu-lhe que o
deixasse ainda por mais três semanas, dado o interesse
que tinha em conhecer melhor a tecnologia utilizada na
sua fabricação. Após esse prazo mostrou o que tinha feito:
quinhentas e oitenta e oito sugestões de modificação de
circuitos reunidas num calhamaço onde havia cálculos,
mapas, desenhos, tabelas, gráficos, etc. Enviou todo este
material àquela fabrica e sabe-se que recebeu carta de
próprio punho do presidente da mesma, o qual lhe
agradecia o envio de tão precioso material, além de lhe
comunicar que todas as suas sugestões tinham sido
devidamente patenteadas em nome da empresa.
Nunca se casou, pois pensava, como Braz Cubas, que
não se deve transmitir a ninguém o legado da miséria
humana. E mais: tinha absoluta certeza de que os objetos
podem ser consertados, reformados, reparados, restaurados
e até mesmo melhorados, mas isso não pode acontecer
com as pessoas, motivo pelo qual optou pelo trabalho que
exerceu até o dia de sua morte.
Por ironia do destino morreu devido a um acidente.
O coronel-comandante do mesmo regimento ao qual servira
na longínqua época da guerra lhe levou de presente uma
relíquia daquele tempo. Era uma granada de fabricação
alemã, guardada por mais de quarenta anos no pequeno
museu de sua propriedade. Aristolóquio se lembrou de
como escapara da morte durante a batalha travada contra
os alemães ao pular na trincheira cavada pouco antes, quase
ao mesmo tempo em que uma granada foi lançada no
local onde estava. Nessa recordação se distraiu, destravou
a granada e ela explodiu, mandando os dois para os ares.
Foi enterrado com a bandeira do Brasil sobre o caixão
e ao som do hino dos expedicionários.
Ainda não foi feito o inventário dos objetos que
estavam para serem consertados ou entregues, mas há quem
garanta que não terão o destino que tiveram aqueles de
seu inspirador, o frade franciscano Felicíssimo, mais
conhecido como Tamancão ou Petit-Chulé. Na realidade,
todos os que escaparam da explosão serão entregues aos
respectivos donos.

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