sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Confraria dos excluídos, Ronaldo Guimarães

Uma cidade da zona da mata, em Minas, nem grande,
nem pequena. O bar fica na Rua Direita e a mesa é a
última à esquerda. Duas mesas juntas. Bar do Careca.
Hermenegildo, o dono, cabeludo, cinqüenta e oito anos,
barriga de chope e sobrancelha espessa recebe toda quartafeira
seus amigos saudosistas e sem profissão. Apesar disso,
nunca penduraram uma conta e por isso mesmo, queridos
do Careca. Se seu nome – Hermenegildo – está em desuso,
sua profissão continua em alta, ao contrário dos
participantes das duas últimas mesas das santas e cinzentas
quartas-feiras.
Eles chegam devagar, sorrateiros, pés macios e “sede
de anteontem”. Fialho, o coletor, aquele que pagava toda
a população da cidade, senta-se à cabeceira da mesa, munese
de uma caixinha de fósforo para controlar, com
palitinhos, a quantidade de cerveja bebida, não que
desconfiasse da honestidade do Careca, mas, diabos, afinal
era ou não era um coletor? Pedia três cervejas para começar.
Tirava três palitos da caixa e colocava no bolso do paletó
marrom de coletor.
Careca, um gozador, gritava para o copeiro:
– Abre três geladas para a mesa dos fantasmas.
Senhoras e senhores abrem-se as cortinas e começa o
espetáculo. Lá vem drama! Podem começar a choramingar,
bolorentos!
Moreira, o dentista-prático, choramingava com Veiga,
o amolador de facas:
– Pra você ver, né Veiga, vivi a vida inteira nesta
cidade, cuidando e cheirando bocas fétidas e agora sou
obrigado a ouvir que sou fantasma. Cansei de alvejar
sorrisos. O seu é um exemplo. Lembra de sua boca podre?
O amolador de facas se amolou com o comentário,
se tivesse uma faca afiada usava contra o protético. Lembrava
sim, de sua boca fedorenta.
Moreira continuou:
– Que ninguém nos ouça, mas minha obra-prima foi
a dentadura da Cidinha.
Só que ela ouviu. Cidinha fora a miss mais amada da
cidade, perdeu o cetro no início da década de sessenta
para miss Belo Horizonte, no Minas Tênis Clube. Não por
duas polegadas a mais, mas por um júri parcial. E tinha
dentadura.
Cidinha fuzilou Moreira com os olhos e depois daquele
segredo desvendado nunca mais lhe dirigiu a palavra.
Tremeu tanto o queixo que a dentadura quase pousou na
porção de moela. Bobagem dela, miss nem era profissão e
mesmo assim ela participava da mesa e era adulada por
eles.
Osório, o caixeiro-viajante, nem notou a indignação
de Cidinha. Estava mais preocupado em digladiar mais
uma vez com Tenório, o tropeiro:
– Minha profissão foi uma das mais importantes deste
país e do mundo. Levava bugingangas e alegria pras
pessoas. Fui inspiração de uma das melhores peças de
teatro de todos os tempos.
Tenório, contra-argumentava:
– Tudo começou comigo, meu amigo. Queria ver você
levar as mercadorias no lombo de burro, como eu.
Pigarreou e pediu uma porção de feijão tropeiro.
Apesar das controvérsias, eram grandes amigos. Um tocava
violão, outro acordeom. Osório e Tenório defendiam um
troco nos finais de semana.
Quando o prefeito passou do outro lado da rua, fezse
silêncio na mesa. Joaquim, o alfaiate, quebrou o
constrangimento:
– Fiz muito terno pro pai dele, aquele sim, o maior
prefeito desta comarca.
Careca provocou:
– E para quem mais? Diga aí Quinzinho para o deleite
da mesa dos fantasminhas.
– Para meu amigo Juscelino. Quem quiser que acredite.
Não tenho mais fígado pra ficar convencendo as pessoas
das minhas habilidades e amizades.
Todos da mesa fizeram uma mesura para o melhor
alfaiate da região. Sentiu-se importante e sorveu a melhor
aguardente da região. Estalou os dedos. Lágrima nos olhos.
Cachaça ou emoção?
Neco, o bruxo do velho realejo, foi enfático:
– Na verdade, Quinzinho, o pai desse prefeitinho aí
fui eu que elegi. Hoje a família nem me olha na cara e
nem sabe quem sou, mas fui de muita serventia. Eu era
udenista, como o pai dele, e o outro pessedista e forte
candidato, mas supersticioso de dar gosto, consultava o
meu periquitinho todos os dias pra tirar a sorte. O que fiz:
postei-me em frente ao seu escritório e reduto eleitoral e
escrevi em todos os papeizinhos: “Serás o melhor deputado
federal de todos os tempos. Amém”. Coloquei o “amém”
no final porque sabia que ele era, além de supersticioso,
católico praticante, desses de ajudar padre, abanando
turíbulo. Antes de entrar no escritório, ele tentou a sorte:
“Vamos lá louro, me dá uma luz”. O periquito bicou o
papel e ele desistiu de concorrer para a prefeitura. Pior:
perdeu a eleição para deputado federal. Ficou sabendo da
minha falcatrua e quase fui execrado em praça pública. O
periquitinho, coitado, não bicava nem alpiste. Morreu logo
depois. Não tenho mais ninguém. Ainda bem que tenho
vocês e minhas quartas-feiras.
Silêncio sentido na mesa.
Careca quebrou o gelo:
– Calma pessoal! Olha aí quem está chegando. Chega
mais, mãezinha!
A mãezinha chegou aos trancos e barrancos,
empunhando uma bengala enferrujada:
– Me dá uma pinga e um torresmo e bota na conta
dessa minha filharada.
Todos levantaram e reverenciaram Nica, a parteira.
Menos Fialho, o coletor, que estava mais preocupado em
coletar mais um palitinho de fósforo na contabilidade da
mesa. Nica brilhava:
– Trouxe todos vocês pra esse mundo de meu Deus,
ouvi todo o berreiro dessa cidade. Que cena degradante
esse silêncio constrangedor das quartas-feiras. Bem, meus
filhos, mirem-se no exemplo dos meus noventa anos. Que
se danem os obstetras! Quem são eles para terem mãos
delicadas como as minhas. Quem são eles para tirar tanto
cabeção de caminhos tão estreitos! Nunca casei, nem tive
filhos. Meus filhos são vocês. Não tenho pena de vocês, já
foram grandes profissionais, já impressionaram esta cidade,
tenho orgulho de todos!
A parteira deu outra talagada na pinga e continuou:
– De quase todos. Madalena, por que você se prestou
a esse ofício tão cínico e forjado de chorar em enterros?
Me perdoe a franqueza, querida, mas somos antagônicas.
Se minha vida foi trazer vidas, com alegria, a sua foi leválas,
com tristeza...
Madalena, a carpideira da cidade, que era bem paga
por políticos, comerciantes e fazendeiros para chorar por
defuntos mal queridos, desta vez, chorou de verdade:
– Precisava ganhar a vida, mãezinha. Gostava do meu
ofício, fazia um barulho danado, hoje sou foguete molhado.
Nego fogo.
Chegou o coveiro. Coveiro e pedreiro. Encostou ao
balcão e pediu uma cerveja preta. Não se dirigiu à mesa,
não fazia parte da confraria. Não tinha o problema deles.
As pessoas continuavam morrendo e construindo casas.
Homem de poucas palavras e choros. A palavra que ele
mais usava era “pode”. Fora apaixonado pela carpideira,
invejava a sensibilidade dela. Depois que soube que o
choro era profissional, separou-se. Ela riu na cara dele. Era
mais bonita quando chorava, pensou. Respeitava os choros.
Nos enterros, quando os parentes do morto cansavam de
chorar, ele perguntava: “Pode?” Podia. Então, ele enterrava
a pá na terra e encobria o defunto.
Pagou a cerveja preta, equilibrou um palito na boca
e saiu sem esperar o troco. Nem olhou para a carpideira
que também não notou sua presença; Estava mais
preocupada em achar a moeda de um que caíra no chão.
Bento, que de bento não tinha nada, o lanterninha do
único cinema da cidade que fechara as portas há alguns
anos por falta de público que gostasse da sétima arte,
ajudou-a a procurar a moeda com sua inseparável lanterna.
Na verdade, não estava ajudando nada. Queria mesmo
era serpentear-se em baixo da mesa em busca de um lance
espetacular da preceptora, que usava uma saia plissada,
quatro dedos acima do joelho. Beirando os sessenta anos,
gostosona ainda, fora o furor da cidade no início da década
de sessenta, rivalizando com Cidinha, a miss da dentadura.
Norminha era contratada pelos fazendeiros para ensinar
aos filhos o beabá e as contas de mais, menos, de vezes e
às vezes uma ou outra divisão. Contratavam a peso de
ouro, não pelas habilidades didáticas, mas pela beleza.
Ofereciam mundos, fundos, terras, casa montada e
rebanhos. Ela não quis arrebanhar nada e continua sozinha
com seus amigos das quartas-feiras.
Norminha notou que o lanterninha, o voyer fofoqueiro,
que presenciara os primeiros beijos de língua da cidade e
corria para contar para as mães zelosas, não estava
interessado em procurar moeda e sim vislumbrar calcinha.
Deu-lhe uma pancada na cabeça com sua sombrinha:
– Mãezinha, dá um jeito nesse seu filho enjeitado.
A parteira desferiu outro cascudo, dessa vez com a
bengala enferrujada. Outro filho que não tinha sua simpatia.
O palhaço Dengoso, para quebrar a angústia, esboçou
uma piada. Ninguém riu. Na calçada, o amestrador de cães
do seu finado circo, passeava com cães de madames: “ Se
deu bem, o cretino”, pensou Dengoso, sem nenhum dengo.
Mas, na mesa não era só solidão. Ali o jiló também
era doce. Havia um casal de vendedores que alegrava o
recinto. Como os outros, também estavam em extinção,
mas não davam a mínima. Economizaram nas vacas gordas
e hoje viviam até com algum conforto. Vendedores e dos
bons. Fonseca distribuiu muita cultura, na querida cidade,
trajando terno xadrez, vendendo “Barsa”, já Violeta
embelezou a cidade vendendo Avon.
Quando ela apertou a campainha da casa de Fonseca,
ouviu-se um “blim, blom, Avon chama”. Ele atendeu e foi
amor à primeira vista. Perderam de vista quantos anos juntos.
Fonseca ajeitou a gravata colorida do terno xadrez e
declarou para a mesa, orgulhoso:
– Tem mais de trinta anos que jogo minha roupa suja
no mesmo balaio.
Violeta, com cara de balaio de roupa suja, sorriu
agradecida.
Todos da mesa também sorriram. Precisavam de gente
alegre e bem resolvida naquela mesa.
Alegria ali era novidade e naquele dia tinha nome e
sobrenome: “João dedinho”, o telegrafista dos dedos ágeis,
estava particularmente feliz. Recebera uma mensagem de
sua neta, no celular de sua filha, contando do novo emprego
em Nova Iorque: gerente da Fedex – o “Correio” deles.
Tomou emprestado o celular da filha e desfilou com ele,
mostrando para os parceiros a notícia. No final da
mensagem estava escrito: “Dá um beijo no vovô, minha
maior inspiração!”
A noite já ia alta e a lua começou a se esconder atrás
da montanha. Romualdo, o relojoeiro, homem dos segundos,
minutos e horas, morrendo de sono, proclamou:
– Gente, vamos embora, tá na hora!
Trêmulo, doença de São Guido, tirou o relógio do
bolso com muito custo e viu através dos óculos de vista
exausta que estava na hora. Manuseara ponteirinhos e
ponteirões com mestria. Perdeu o emprego para relógios
digitais e descartáveis.
O entregador de leite nem deu bola para o relojoeiro.
Não precisava mais acordar às quatro da matina para colocar
garrafinhas de leite nas varandas das casas. Tinha todo
tempo do mundo para ver luas atrás das montanhas, sem
se preocupar com leite azedo. Azedume, chega a vida.
No momento em que a lua acabou de se esconder
atrás da montanha e o coletor pediu a conta, Gonzaga, o
retratista do lambe-lambe, caminhou trôpego até sua
“Brasília” amarela e, com dificuldade, colocou o tripé em
frente às duas mesas. Enclausurou-se dentro do pano preto,
sentiu seu hálito forte de cachaça e gritou lá de dentro:
“Olha o passarinho. Sorriam!” Estourou um clarão. Eternizou
a tristeza da mesa.
Não olharam o passarinho que com seu pio sem
sinfonia, equilibrava-se no último galho da “Dama da noite”.
Só a carpideira sorriu.
Careca, com alguns gemidos abafados, mas com os
músculos ainda rijos, abaixou a porta de aço do
estabelecimento e acompanhou os amigos pelas ruas
estreitas da cidade.
Quarta-feira que vem que naturalmente viria, talvez
viesse melhor.

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