sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Recavém, José Fernandes Pacheco

Quando nasceu-me o primeiro neto fiquei muito
emocionado. Não só por aquelas razões óbvias e comuns,
como também por algumas razões pessoais que me são
caras. Entretanto, mesmo nos momentos de maior emoção,
costumo ser assaltado por preocupações prosaicas. Minha
irmã trabalha no IBGE. E nós achamos muita graça dos
nomes que andam escolhendo para crianças brasileiras, e
que são encontradiços nos formulários das PINADs. Há
pais tão desnaturados que são capazes de batizar um filho
com o nome de Magáiver. Um amigo meu batizou o filho
com um nome que ele não sabe pronunciar. Ele diz que o
menino foi registrado como Gláudiston. A mulher dele disse
que é Gladistone, um avô disse que é Gláusson e o outro
diz Gráuço. Agora o rapaz está adulto – acho que até já se
casou – e ninguém sabe com certeza como é seu nome.
Que lástima!
Para que semelhante asneira não se perpetrasse com
meu neto, comuniquei à minha nora, ainda na cama da
maternidade, que ela não precisava se preocupar em
escolher nome para o menino, porque eu já o houvera
feito. Justifiquei: ser-lhe-á dado um nome de literato. Para
que, além da boniteza do avô, seja ele herdeiro de nobres
pendores para a literatura. Receberá ele na pia batismal o
nome de Santiago. E, antes que alguém redargüisse que
não se conhece nenhum escritor famoso com esse nome,
aduzi: quase todos os que escreveram em língua portuguesa
ou castelhana deram esse nome a seus melhores
personagens. Dom Quijote, por exemplo, é apelido. O
verdadeiro nome do personagem era Santiago Zapatiero
de los Tacones Sin Salto.
Eduardo Galeano me contou o seguinte: “Diego não
conhecia o mar. O pai (...) levou-o para que descobrisse o
mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, estava do outro lado
das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai
enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito
caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta
a imensidão do mar, e foi tanto o seu fulgor, que o menino
ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu
falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: Me ajuda a
olhar!”
Lindo, né? Mas teria alguma graça se o pai não se
chamasse Santiago Kovadloff?
O que é que vocês pensam que pesou para que Ernest
Hemingway ganhasse, em 1954, o Prêmio Nobel de
Literatura? Alguém tem dúvida de que foi o nome do
protagonista de O velho e o mar? Crônica de uma morte
anunciada teria alguma graça se não tivesse sido escrita
para contar as peripécias de Santiago Nasar? Por que é que
“Santiago del Estero” ainda figura no mapa da Argentina
como nome de província? Este nome significa Santiago do
brejo. Mas ninguém seria maluco para anexá-lo a outro
estado ou correr o risco de mudar-se-lhe o nome para
Concepción del Mato Dentro. Eu mesmo tenho escrito contos
belíssimos. Mas, se não trocar o nome de algum João, estarei
condenado ao merecido anonimato em que tenho vivido
até hoje.
Lembrei a minha nora que, num esforço para ser
reconhecido como grande escritor, o nosso campeão de
vendas de livros deu o nome de Santiago ao protagonista
de um livro que acabava de publicar.
Quando achei que esses argumentos e o invulgar
brilho com que os expus eram bastantes, permiti um breve
aparte de minha nora e me dei ao trabalho de lhe explicar
que quem vive viajando para vender livros é colportor. E
que é nesta categoria que nosso campeão se sobressai.
Entreguei, então, aos seus mui enfaticamente
recomendados cuidados, uma carta endereçada ao Senhor
Santiago Soares Serra Pacheco – para ser-lhe entregue
quando ele alcançasse o discernimento necessário para lidar
com os arcanos da vida – em que lhe legava uma pequena
parte de meu saber e lhe fazia solenemente a promessa de
que, no devido tempo, transmitir-lhe-ia outros saberes
recebidos em preciosa herança de meus antepassados.
Mas meus filhos e minhas noras não costumam cortar
onde eu risco, e adversam-me as admoestações. Não deram
ao menino o nome que eu, tão sabiamente, havia escolhido.
Talvez por isso mesmo ele, à medida que vai crescendo,
vai se tornando cada dia mais parecido com o outro avô.
Igor pode ser um bonito nome. Mas o Igor mais famoso de
quem já ouvi falar é um compositor meio amalucado, que
compôs músicas com acordes que os pedantes chamam
dissonantes e polifônicos, mas que a gente sabe que são
mesmo é desafinados. Isso joga nas costas de meu neto,
precocemente, a responsabilidade de tornar famoso um
nome sem tradição em nossa língua, já que os brasileiros
que receberam este nome raramente passaram de beque
central. Mas, ainda que meu neto não opte pela beletrística
será, por certo, um grande engenheiro mecânico, o que
também é muito bom.
Isto, porém, não é meu assunto aqui. Como declarei
alhures, prometi que passaria a meus netos e, por via de
conseqüência, às gerações porvindouras, preciosos saberes
herdados de meus ascendentes. Vejo novelas na televisão
e gosto, principalmente das que usam linguagem ruralesca.
Deleito-me com a beleza das atrizes, mas anojo-me com a
constatação de que brasileiro não sabe mais que se monta
a cavalo apoiando-se o pé esquerdo no estribo e jogandose
a perna direita sobre o animal. Não há de ser o fato de
estarmos aprendendo uma porção de coisas novas e boas
que vai nos autorizar a fazer coisas tão grotescas como
ficar parecidos com um saco de fubá, quando nos montamos
- pelo lado errado! - num cavalo.
Entre as coisas que, prioritariamente, queria ensinar a
meu neto está – ou estava! – o ofício de carreiro. “Isso foi
no mês de outubro, regulava meio-dia, o sol parecia brasa,
queimava que até feria. Foi um dia muito triste. Só cigarra
que se ouvia e o triste cantar dos pássaros naquela mata
sombria”. Mas isso é um pedaço de uma moda de viola
que valia pela beleza da voz e da viola de Tião Carreiro.
Talvez valha agora apenas para que esses meninos
aprendam que a cigarra canta no mês de outubro. E que
se alguma cigarra canta em outro mês será uma cigarra
serôdia. Mas não nos entretenhamos a falar de cigarras,
porque nosso assunto aqui – como prometido na
mencionada epístola – é o ofício de carreiro. Começaremos
pela identificação das peças de um carro de bois porque a
primeira obrigação de um profissional, seja ele Zé Coco
do Riachão ou Michelângelo, é conhecer os instrumentos e
cinzéis com os quais exercem sua arte ou seu ofício.
A maior peça de um carro de bois é o cabeçalho, que
corresponde, em utilidade, à longarina do automóvel. Na
ponta do cabeçalho fica o pigarro que é por onde se amarra
o carro para que ele seja arrastado. Ora, se o carro anda
arrastado pelo pescoço, seria mais apropriado dizer-se que
ele anda gemendo. E não cantando, como é corrente dizerse.
Com isso concorda um certo Capitão Rodrigo – ou outro
gaudério de cujo nome já não me lembro – que compôs,
para magnífica interpretação do Conjunto Farroupilha:
“Carro de boi que não geme não é bom. Carro de boi bom
mesmo é o gemedô. Carro de boi gemedô da serra,
carregadinho de cana de açúcar, que é p`ra levá p`ro
engenho moê, p´ra fazê raspadura e adoçar-se o café. Café
p`ra gente bebê, p´ra fazê raspadura e fazê mé p´ro dotô
ganhá dinhero e comprá chevrolé.” Considerando tratar-se
de coisa de gaúcho, até que não era tão ruim. Mas voltemos
de carro. Ou melhor: voltemos ao carro de que falávamos.
Na extremidade oposta ao pigarro fica o recavém.
Assim, bem comparado, o recavém é a bunda do carro.
Pode até ser que, para evitar a vulgaridade da palavra
bunda, quando passar uma mulher bonita, e não for
possível reprimir a vontade de fazer-lhe um galanteio, a
gente exclame emocionado e convicto: “Que belo recavém!!!
Benza-o Deus!”
Ligando as outras partes que formam a estrutura do
carro ficam as duas chedas. São estas duas peças de madeira
que formam, com o cabeçalho e o recavém, o chassi do
carro, que tem, na parte anterior, a forma de uma mesa
oblonga. E na parte posterior o já citado recavém.
Quando percebo que a dissertação está ficando muito
longa, aplico uma javanesa no Igor, antes que ele se sente
na frente do computador e comece a jogar o tal de vídeo
gueime. Se ele começar, adeus tereza!
Para retomar minha brilhante explanação, tomo vias
circunloquiais, também conhecidas como perífrases.
– Lembra-se do Dr. Euclides?
– ?!!!
É claro que ele não se lembra. Mas vou em frente,
aproveitando a quebra do silêncio. O Dr. Euclides Martins
era um cientista. Uma vez, ele foi para os Estados Unidos
fazer uma pesquisa sobre a comunicação entre os bovinos.
Apesar de eu não acreditar muito nessas pesquisas de
americanos, porque se elas fossem tão confiáveis eles já
teriam aprendido a escolher presidente, guardei algumas
informações que o Euclides me passou. Os bovinos só
aprendem a contar até quatro; distinguem poucas cores; e
só entendem as palavras ditas pelos humanos a partir da
sílaba tônica. Fiz minhas próprias observações e concluí
que há furos nessas teorias. Morreu uma vaca do João
Batista Franco. Então ele, para não deixar a bezerrinha
morrer de fome, - era uma bezerra muito boa - colocou-a
para mamar, goderadamente, numa vaca chamada
Espanhola. Podia ter quantas vacas tivesse no curral, que
era só o Evaldo gritar Espanhola! e a bezerrinha vinha
correndo. Podia gritar Caçarola, ou Carabiola e a bezerra
não vinha. Brizzola, então, nem pensar. Só vinha, pulando,
toda sorridente e airosa, quando ele gritava Espanhola.
Além disso, a teoria se desmente numa prática
centenária: Nome de boi de carro, geralmente, termina em
ão: Capitão, Figurão, Fazendão, Riachão etc. Fosse válida
a conclusão da tal pesquisa, os bois não atenderiam ao
comando do carreiro, porque não saberiam a qual deles o
comando estava sendo dirigido. O carreiro grita: “Desencosta
Segredo!” e o Segredo desencosta, ainda que haja outro
boi chamado Brinquedo, ou Sarzedo, ou Figueiredo.
Bem, quando saí para essa digressão, já havíamos
falado da estrutura do carro, ainda que mal e porcamente,
porque omitimos que sobre a estrutura fixa-se o assoalho.
Continuemos. Até porque não gritamos ôôôôôôaaaa! Que
é o que se deve fazer para parar o carro. As chedas são as
duas peças laterais de madeira, arqueadas na parte da frente,
onde são fixadas ao cabeçalho. Cada uma é vazada por
seis furos verticais, eqüidistantes, em simetria especular com
a outra. Nesses furos, cujo diâmetro é de 32 milímetros,
metem-se os fueiros, cuja função é arrimar a esteira, que
forma a parede do carro, que se completa com o caniço.
Este é portátil e, quando necessário, é colocado sobre o
recavém, onde, também se arrima em fueiros. A carga oficial
de um carro é 40 balaios. E a capacidade de um balaio
oficial é de quarenta atilhos.
– Não entendeu?
Vovô explica: um atilho é igual a quatro espigas de
milho. Logo, quatro vezes quarenta, multiplicado por
quarenta, é igual a seis mil e quatrocentas espigas de milho.
Isso é um carro de milho.
– Entendeu agora? Então vamos em frente. Você
prefere que volte a falar dos bois ou quer que termine a
explanação sobre o carro?
– Eu não prefiro nada. Quero mais é que você termine
logo essa lenga-lenga. Seria até capaz de jogar um partidinha
de buraco, mesmo sabendo que você se faz de cego para
comprar duas cartas de cada vez quando fica sem descarte,
só para ver se você me poupa. Se eu gostasse de histórias
sem fim, teria continuado a ler Malba Tahan...
– Não seja ingrato com o vovô que te ama tanto.
Estou tentando livrá-lo de uma maldição: “Um povo que
não conhece sua história...
– ...está fadado a repeti-la”. Eu só espero não estar
fadado a ouvir a repetição dessa francesinha manjadinha.
E, dizendo essas palavras, levantou-se e foi ver filme
de ficção científica na televisão, me deixando preocupado.
Foram esses malucos da ficção científica, como aquele tal
de Júlio Verne, que deram idéias para se inventar coisas
sem as quais já não se pode viver. Porque, com seis bilhões
de bocas para comer, não dá mais para trazer o feijão no
carro de bois. É isso que o Igor anda aprendendo com
esses ficcionistas. Vai ver que quando crescer será um deles
também.
E eu ainda ia contar-lhe da boniteza que era quando
eu era criança pequena lá em Lagoa Formosa. Todo o
feijão destinado à venda tinha que ser trazido da roça para
ser imunizado no armazém do Zé Grande. Então todos os
carros chegavam de madrugada e até parecia que era um
carro só, porque em qualquer lugar em que se fosse ouviase
a mesma cantiga. E quando era um ano bom, que dava
muito feijão roxinho – de um muito bom que já não se
planta mais, porque ele era muito sestroso, e se não
chovesse nos dias certos ele não dava nada – a rua principal
do arraial chegava a ter congestionamento de trânsito. É,
estão pensando que não tinha? Pois tinha!
Mas o Igor não teve paciência de me ouvir contar
como se escolhiam os bois para se formarem as juntas;
que os bois de cabeçalho e os de guia eram os mais
importantes; que até o formato dos chifres destes era levado
em conta na hora da escolha; que todas as cordas eram
feitas de couro e cada uma tinha um nome que indicava
sua utilidade: ajoujo, soga, tamueiro, ligeira, brocha... que
todas as peças de madeira tinham nomes muito bonitos
que já não estão mais nos dicionários, se é que já que
estiveram... que com a idade dele eu já era muito bom
carreiro; que não tenho saudade desse tempo porque meu
pai era muito brabo e quando algo saía errado a guasca
comia, nos bois e no candieiro; que candieiro era o menino
que ia à frente para que os bois de guia o seguissem, e
para abrir as porteiras...
A reação do Igor me faz reconhecer que não foi só o
feijão roxinho que entrou em extinção. Extintos estão
também os carros de bois e os carpinteiros que ajustavam
seus eixos com extremado esmero, já que aquilo era quase
uma obra de arte. Que o último bom ferrador de carro de
quem me lembro, foi Seo Cirilo de Brito Freire que morreu
há mais de quarenta anos.
Pensando nessas coisas, vou me lembrando de tantas
outras que caíram em obsolescência; que até eu já estou
tão obsoleto que meu vocabulário parece inspirado no
capítulo quarenta do livro do Profeta Ezequiel, em sua
primeira tradução para o português que era falado em
Portugal no século XIX.
Bons contadores de histórias ainda existem. O que
está desaparecendo rapidamente são os bons leitores e os
bons escutadores. Aqueles que ficavam sentados em cima
da bunda, escorando as costas na parede, e ouviam nossos
causos pançudos até serem ameaçados de cair de tanto
sono. Pegavam o tamborete, levavam para dentro, aliviavam
a bexiga lá atrás da casa e iam dormir. Como se fossem
crianças a quem se contam histórias, até que a monotonia
das repetições as hipnotize para que durmam em paz e
sonhem com o boi da cara preta.

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