sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

O amolador de facas, Ivan Kardec Franco

“Amolador cantador, me tire todo o ciúme desse feitiço afiado,
que é como um talho gemendo, vai rezando, vai moendo, meu
pensamento amolado”.
(Da música “Amolador” de Orlando Morais)
Na pequena Boa Esperança, onde trabalhei, residia o
meu avô Samuel Neves. Homem metódico, devorador de
livros ao longo dos seus oitenta anos.
O alpendre da casa era seu lugar favorito. Na cadeira
confortável, lia, cochilava e observava o cotidiano da sua
rua.
À tardezinha, ao término de minha jornada de
trabalho, eu o procurava para nosso habitual bate-papo.
Ele se sentia bem com a minha presença e eu gostava de
ouvir suas histórias.
Algumas vezes cheguei a pensar que as inventava
em razão dos inúmeros detalhes, da lembrança precisa das
datas e dos nomes completos de seus personagens.
Um dia, durante nossa conversa, ele me disse:
“Que coisa curiosa é a memória. À medida que a gente
envelhece vamos perdendo a memória recente e reavivando
antigas lembranças. Não sou capaz de lembrar a cor das
meias que estou usando e nem mesmo recordo o que hoje
almocei. Mas, lembro-me com lucidez de minha adolescência
e até mesmo de minha infância.
Num gesto despistado alonguei as pernas para
conferir se minhas meias eram mesmo cinzas. Após a
confirmação voltei a prestar atenção ao que dizia:
“Foi pelos idos de 1940 que aqui apareceu Manoel
Firmino, um jovem Amolador de Facas ambulante, vindo
lá das bandas de São Paulo. Muito já havia lido sobre aquela
profissão e tinha curiosidade de ver a engenhoca que eles
usavam. Depois dele, que nos visitava com uma certa
freqüência, foram tantos os amoladores que aqui chegaram
que, noutro sentido, passaram a amolar a gente.
Firmino era discreto e o único barulho que fazia era
o do atrito do metal com a roda pétrea. Os demais usavam
flauta, gaita e até sanfona para chamar a atenção, numa
cidade onde os dias e as noites transcorrem silentes. Além
do mais, não paravam de gritar: Amolador de faca; amola
tesoura, canivete e moedor de carne; olha o amolador de
faca!”
Para mim isso não era nenhuma novidade. Desde
cedo presenciei os amoladores na esquina da rua onde
morava. Até hoje eles existem, apesar das facas modernas,
das pedras domésticas de amolar e dos amoladores
vendidos em supermercados.
Mas, meu avô desejava relembrar o seu amolador
preferido e mostrar o seu, então, prévio conhecimento
teórico a respeito do assunto. Diante de um ouvinte atento
ele continuou:
“Hoje, já se fabricam lâminas, canivetes, tesouras e
alicates de unha de aço inoxidável ou alumínio, que não
perdem o fio. As facas de aço carbono, que enferrujam, são
tão baratas que muita gente prefere jogá-las fora após certo
tempo de uso. Sem falar das de pedra ou de material
vulcânico, as de bronze já eram conhecidas há três mil anos
a.C. As de ferro surgiram 1.200 anos a.C.
O ferro foi descoberto, no Brasil, no século XVI pelos
jesuítas, que logo passaram a fabricar também anzóis e
outros tipos de ferramentas.
Adicionando-se carbono ao ferro dá-se origem a várias
formas de aço. No tempo do Firmino nossas facas eram
mesmo muito ruins.”
Mostrando seus dotes culturais, ele acabava de
ministrar informações exatas que mais tarde pude confirmar.
Sabendo que o ponto central de suas reminiscências
era o amolador, perguntei-lhe:
– “Firmino era daqueles indivíduos que o povo
chamava de burro-sem-rabo?”
– “Não, não. Burro-sem-rabo era o puxador de
carrinho de madeira, semelhante aos dos catadores de papel
de hoje, ou mesmo de engenhocas mais simples de amolar
que eles mesmos fabricavam. A dele era tipo dois-em-um:
uma bicicleta normal com uma roda de esmeril adaptada
ao guidom. Quando parada, um descanso de metal era
destravado para manter a roda da frente suspensa e livre
do atrito. A seguir conectava-se o esmeril numa
engrenagem ao lado da roda, através de uma correia”.
Vovô, que já fora funcionário público e então
aposentado, tinha uma preocupação especial com o futuro
das pessoas com as quais se relacionava.
Durante anos seguidos o seu amolador esteve em
Boa Esperança e, a cada vez, ele insistia num mesmo
assunto:
“Meu filho, você precisa pagar o INPS. Tire uma
beiradinha das amolações e pague o Instituto. Quando você
tiver uma certa idade poderá se aposentar e continuar
trabalhando até quando der conta”.
Pelo jeito o andarilho da engenhoca jamais gastaria
um centavo com aquela idiotice. Creio que ele nem sabia
o que aquilo significava. Àquela altura, solteirão já próximo
dos quarenta, gastava seu dinheirinho comprando peças
para a bicicleta e, vez ou outra, nas gafieiras de cidades
maiores. Adorava dançar e dizia que, na dança, sempre
arrumava uma namorada temporária. Para ele isso parecia
ser o máximo de sua ambição amorosa.
Mas, na verdade, segundo vovô, ele já se apaixonara
por uma bailarina de cabaré. Ana Rosa era o seu nome.
Durante um ano ou mais ele não deu as caras em Boa
Esperança. Encontrava-se namorando, supostamente, na
cidade de Poços de Caldas.
Pouco depois desse tempo, ele apareceu. O atrito de
um pedaço de ferro no esmeril foi o suficiente para vovô
identificar a presença do amigo. Levantou-se incontinenti
de sua sesta do meio dia e foi ao seu encontro. Achou-o
um pouco mais cansado, um pouco mais magro e a seguir
completou:
“A bicicleta, pneu balão, era nova, como nova era a
caixa de ferramentas. Nela havia alicates, martelos, chaves
de fenda, uma pequena bigorna. A concorrência o
mandava fazer mais pelos clientes: desamassar e apertar
os parafusos dos cabos das facas e das panelas eventuais.
Até mesmo panela de pressão ele aprendeu a consertar e a
oferecer, por um bom preço, as borrachas importadas. Mas,
o que mais estranhei foi a sua desinibição e uma garrafa
de cachaça dentro da caixa de ferramentas”.
Naquele momento imaginou que um pobre destino
aguardava seu amigo.
Com muita insistência vovô conseguiu arrancar-lhe
algumas informações que julgava importantes: sua data de
nascimento; o endereço de um meio irmão, Paulo Firmino,
que residia em Franca e o nome completo de seus pais.
Era tudo o que precisava para inscrevê-lo no Plano
de Aposentadoria da Previdência Social.
“Naquela época os escritórios da Previdência só
existiam em cidades maiores. Era preciso ir à Varginha
inscrevê-lo no INPS, onde exigiam a presença dos indigitados
com os respectivos documentos. Eles tinham que assinar um
livro ou levar testemunha para tal. Como meu amigo já havia
recusado várias vezes minha proposta consegui alguém
para ser a testemunha e um outro que passaria por ele
dizendo ter perdido seus documentos. Tudo deu certo e
Firmino fora classificado no CBO-Classificação Brasileira
de Ocupações do Ministério do Trabalho, código MT 7213-
10- Profissão: “Afiador de Faca Ambulante”.
Vovô forneceu seu próprio endereço para receber
comunicados oficiais e os carnês de pagamentos. Durante
anos a fio pagou tempestivamente aquelas mensalidades.
Sua memória relembra seus derradeiros encontros:
“Firmino, meu amigo, é possível que eu morra antes
de você. Estou fazendo algo em seu beneficio e se eu passar
desta para outra gostaria que você procurasse meu filho
Enéas ou falasse com alguém de minha família. Nos meus
guardados tem uns papéis que podem ajudálo. Peça-os para
darem uma olhada, está bem?”
Vovô me disse que a partir de sua mudança
comportamental as pessoas, as donas de casa e as
empregadas domésticas, passaram a ter receio de entregarlhe
seus utensílios. Disse, ainda, que da última vez que o
viu, ele tocava um violão desafinado e cantarolava uma
canção de Orlando Morais, intitulada “Amolador”:
“Amolador, cantador
Amolador das facas
Seu romance é com o corte
Que divide o amor da sorte
Que dá visão à cegueira
Na luz certeira da morte
Amolador, cantador
Me reserve outro destino
Não quero ser grito no vento
Brinquedo na mão de menino
Zunindo como um lamento
Gritando num desatino
Amolador, cantador
Me tire todo o ciúme
Desse feitiço afiado
Que é como um talho gemendo
Vai rezando, vai moendo
Meu pensamento amolado
Amolador, cantador
Me tire toda a incerteza
De que os olhos dessa faca
Não vivem pensando em mim
Querendo, sempre, o meu fim
Num mar calmo, sem ressaca
Amolador, cantador
Mas não me tire a braveza
Os berros, os contracantos
Do atrito da faca na cerra
Não me tire os pés da terra
Nem meus sonhos, meus
Encantos.”
Pouco depois meu ente querido, meu companheiro
de prosa, partiu para sempre. Mas, antes de despedir-se de
sua jornada terrena, ainda em seu leito, balbuciou algumas
palavras em meu ouvido. Pediu-me, já que me encontrava
também aposentado, para localizar Manoel Firmino cujo
endereço encontrava-se na terceira gaveta de sua
escrivaninha, junto aos recibos de vinte e cinco anos de
contribuição previdenciária:
“Já não o vejo há três ou quatro anos. É possível que
ele esteja doente ou sem condições físicas para exercer a
sua profissão. Diga a ele que isso foi tudo o que eu pude
fazer. Diga também que se eu tiver oportunidade de me
encontrar com o Criador, vou perguntar se Ele precisa de
um bom Amolador”.
Durante algum tempo o procurei, dentro de um
provável itinerário que adentrava o Estado de São Paulo.
Se cabarés existiram em umas poucas cidades,
nenhuma informação me foi repassada. Nem por alguns
boêmios tradicionais, ainda vivos, nem mesmo pelos
policiais mais antigos. Ninguém jamais ouviu falar de Manoel
Firmino ou da bailarina Ana Rosa.
O endereço em Franca, de seu meio irmão, sequer
existia. Ninguém naquela cidade conheceu o tal Paulo
Firmino.
A cada cidade que passava eu deixava um recado na
rádio local ou mesmo em seus pequenos jornais, quando
existiam: “Gratifica-se a quem souber do paradeiro do
Amolador de Faca conhecido por Manoel Firmino ou seu
irmão Paulo Firmino. Maiores informações junto a esta
Rádio ou a este Jornal”.
Durante seis meses o resultado da empreitada foi nulo.
Ninguém conhecia ou havia conhecido nossos personagens.
Creio até que os dados anotados, bem como os nomes
de seus pais não passaram de puro engodo. Cartório
nenhum pode confirmar tais assentamentos.
Mas, se é verdade que a memória do passado passa
a superar a do presente, rogo aos Anjos dos Céus para que
Firmino se lembre de Boa Esperança. E lembrando, que se
recorde do que vovô lhe disse um dia: “Em meus guardados
tem uns papéis que podem ajudá-lo no futuro”.
Uma irrisória aposentadoria, fruto de um investimento
de vinte e cinco anos!
Ainda hoje, a cada tilintar do telefone, acende a
esperança de poder atender o último desejo daquela alma
nobre e generosa.
Ao me lembrar de tudo isso recordo-me do primeiro
verso da canção do Manoel Firmino que vovô, com lágrimas
nos olhos, cantava baixinho nos dias finais de sua existência
terrena:
“Amolador, cantador
Amolador das facas
Seu romance é com o corte
Que divide o amor da sorte
Que dá visão à cegueira
Na luz certeira da morte.

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