sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Letras de chumbo, sonhos de ouro, Isa Musa de Noronha

Não se deve mexer nas coisas dos outros. Isso aprendemos
muito cedo. Algumas coisas então, bulir nelas é quase um
sacrilégio. Mas, algumas vezes é preciso e assim, por mais
que nos custe, por mais que nos doa e sejamos tomados
de profunda melancolia, às vezes é necessário abrir o que
não nos pertence. Foi assim com aquela pequena caixa
que meu pai um dia cuidadosamente guardou em seu
armário.
Reviro-me na cama. Um carro passa e joga lama em
meu mantô creme, eu tenho cinco anos e me deságuo em
lágrimas vendo o estrago na roupa novinha. Estamos indo
para a praça. Há uma festa de lançamento do mais novo
jornal da cidade. Meu sonho se arrasta e eu me vejo
chegando à casa de minha avó. Carinhosamente, vovó
limpa uma por uma as manchas incrustadas em meu
agasalho. E me consola, fala que aquilo não foi nada e
que vou ficar linda para a festa.
Agora, me vejo na casa vazia de meu pai. Suas coisas
esparramadas sobre a cômoda e eu a procurar os
documentos necessários ao sepultamento. Dentre seus
guardados descobri uma pequena caixa de tipos, letrinhas
miúdas usadas para a composição de jornais no passado.
Parecia um quebra-cabeça. Aqui um “n”, um “i”, um “l”,
um “v” e a letra “a”. Logo escrevi o nome de minha mãe,
“Nilva”. Papai guardou o nome de sua amada em tipos de
chumbo e fico a imaginar o que ele teria escrito mais tarde,
se tivesse todo o conjunto daquelas letras.
Sepultei meu pai em uma chuvosa tarde de janeiro,
velório na Maçonaria, muitos amigos presentes, graves
fisionomias, velhos rostos que não disfarçavam a lágrima
pendente. Alguns contavam casos, relembravam peripécias
da mocidade e até ameaçavam algum riso. Sim, inevitável
é sorrir quando se lembra de Julio Viotti de Noronha. Seu
lema, “a vida é boa e vale a pena ser vivida”, que ele
repetia sempre nas festas de ano novo é, a tradução fiel de
seu espírito. Julio gostava de viver e por maiores que fossem
as dificuldades levava a vida com coragem e alegria.
Em sonhos, às vezes o ouço, no meio da noite, a dar
risadas, a conversar com seus velhos companheiros. Fico
assombrada, mas não tenho medo. Sei que lá por outras
esferas, ou planos, papai deve ainda juntar seus amigos,
contar suas histórias que, de tanto ouvi-las, eu as sei de
cor:
– Tipos? Que é isso? Não sei de tipo nenhum!
Meu pai conta que estava visivelmente nervoso e os
policiais desconfiaram.
– O senhor sabe muito bem do que estamos falando!
Diga logo aonde funciona esse jornal clandestino do tal
Benefredo!
– Olhem, os senhores devem estar enganados.
Benefredo é músico, toca instrumentos, não sei nada de
jornal.
– Acho bom o senhor ir falando, pois já prendemos o
cabeça, o dono do jornal, estamos atrás dos outros três,
Sebastião, os moleques Alaor e Carlos e pra encanar o senhor
também não custa nada!
– Viu só? Não é de hoje que a policia quer proibir os
“pasquins” ou cassar imprensa marrom!
A expressão “imprensa marrom” com toda certeza não
existia ainda. Inicialmente o nome serviu para designar os
jornais sensacionalistas que não têm compromisso com a
descrição fiel dos fatos. Em inglês, a expressão corresócios
correspondente é imprensa amarela (yellow press). O termo
imprensa marrom foi criado por jornalistas do “Diário da
Noite”, do Rio de Janeiro, em 1959. Em campanha contra
editores de revistas sensacionalistas que, segundo acusações,
faziam chantagens em conluio com policiais contra cidadãos
com problemas jurídicos, o “Diário da Noite” decidiu que
amarelo era uma cor suave demais para designar esse tipo
de imprensa. Depois, na Ditadura Militar, era empregado
para designar os pequenos jornais que faziam oposição ao
Governo. Eram jornais “subversivos”. Assim, aqui podemos
chamar “O Três Corações” de “pasquim”. A palavra
“pasquim” tem por significado, jornal ou panfleto difamador
ou satírico que é afixado ou distribuído em lugar público.
No Brasil, “O Pasquim” talvez tenha sido o mais conhecido
jornal de oposição à ditadura militar brasileira. Surgiu em
1969 com textos e cartuns de Ziraldo, Millôr Fernandes,
Jaguar, Fortuna, Claudius, entre outros e foi uma resposta
à promulgação do repressivo AI-5 dos militares. Bem, se
esse foi o “pasquim” famoso, podemos dizer que o do
Benefredo de Sousa foi pioneiro, cá pelas Minas Gerais.
– Mas, que história! Se isso é mesmo verdade essa turma
do Benefredo era mesmo “da pá virada”, como se dizia
antigamente...
– Nem te falo... Eu, Benefredo, Bamba, Ari e tantos
outros amigos que hoje estão aqui no andar de cima, éramos
mesmo da pesada e meus amigos, gente da melhor cepa.
Pois é, meu pai! Hoje com toda a certeza vocês estão
aí, aprontando alguma ou, no mínimo, rindo de nós. Penso
no seu jornal... Nosso “O Três Corações”, e sei que se o
jornal do dia anterior só serve para embrulhar peixe, “O
Três Corações”, não é assim. Esse rendia muita conversa
pela semana afora...
As vozes de meu sonho espírita não se calam.
– Puxa! Quando foi isso? Por que a polícia foi se
interessar por um jornal do interior?
Posso ouvir meu pai:
– Foi por volta dos anos 40, talvez 1944, 45. A cidade
de Três Corações, no Sul de Minas, despontava como
pioneira na imprensa interiorana graças ao seu pequeno
jornal. Sujeito extraordinário, Benefredo de Sousa reunia
vasta cultura. Historiador, poeta, músico e jornalista.
Cientista? Mas é claro, e bom sujeito! Olha só. Eu de música
só sei o nome dos instrumentos, sou apenas um bom amigo.
Nada sei, se comparado a Benefredo. Eu só gostava de jogos,
corridas, bola ao cesto, futebol e assim sou completamente
diferente dele, com toda certeza. Pois eu era desportista, de
porte privilegiado, me dava bem no futebol, no vôlei, no
basquete e nas corridas. Fui exímio nadador, adorava
pescarias, serestas e em sentido figurado era o carregador
do instrumento musical que Benefredo tocava. Uai! Isso era
para ser parte da orquestra e entrar de graça nas festas. Na
tipografia, foi o Benefredo quem me introduziu na arte do
componedor. Sabe você o que é isso? Talvez não saiba, mas
componedor é a prancha da qual se serve o tipógrafo para
a colocação de letras formando linhas de uma determinada
largura. Basicamente é uma peça de madeira ou metal de
diversas dimensões. Tem numa lâmina fixa com rebordos
em ângulo reto e um cursor no qual o tipógrafo vai juntando
à mão, ajustadinhos, os tipos em liga de antimônio e
chumbo, dispostos um a um, formando as palavras, as
sentenças, trazendo a idéia, a arte, a aventura e, é claro,
as fofocas.
Benefredo, com pouca vocação para fantasma,
raramente dá as caras, mas, vendo Julio contar tanta lorota,
não se agüenta e vem dar uma lição no velho amigo.
– Dureza foi fazer Julio Viotti manter em ordem a
Caixa. Essa é um dos principais utensílios da tipografia.
Espécie de caixão dividido em diferentes partes, a essas
divisões se dá o nome de caixotins e onde são guardadas as
correspondentes sortes (os tipos). Vivia a catar as peças no
chão, quando se atrapalhava todo e derrubava a bancada.
Certo dia ficou todo arrepiado achando que o jornal não
iria sair porque ninguém achava a letra “M”! Pois emborque
o W, idiota! Berrei lá do fundo da gráfica. Minha oficina
era simples, modesta, mas fervilhava de boas e más notícias.
E Julio Viotti, lá ficava, a fazer serão, entre estantes com
caixas de tipos, galés, um só componedor (o que tornava
mais difícil ainda o trabalho) e demais utensílios. Eu
possuía uma raridade, um prelo pequeno, de madeira que,
embora peça de museu, ainda funcionava bem. Certa vez
ficamos sem algumas letras A e o Dr. Marcos, experiente
como ele só, era capaz de escrever artigos e notas usando
sinônimos para evitar as palavras que careciam dela e fazia
isso ditando diretamente aos tipógrafos, pelas madrugadas
afora. Tudo pronto, tudo montado, horas a fio a organizar
a linha certa, todos nós cuidávamos da classificação e
conservação dos tipos, com apreço, de modo a não deixar
perder mais nenhum. Enfim, lá estava pronto o jornal! “O
Três Corações”. Eta ferro! Bons tempos...
Veja você. Somente no parágrafo acima existem 231
palavras com 1.356 caracteres. Imagine o que seria compor
isso com tipos de chumbo...
Os delegados bem que tentaram, mas Julio Viotti não
foi preso por falta de provas e somente o Benefredo de
Sousa foi parar no xilindró. A história foi que o “O Três
Corações”, publicou seu boletim “Bomba”, reclamando do
racionamento de sal e açúcar cujas cotas foram fixadas em
750g. O governo, tendo conhecimento do conteúdo do
jornal, enviou a Três Corações delegados especiais para
saber onde foram impressos e a mando de quem. Amigos
fiéis, ninguém abriu o bico e assim foi que somente o
dono da tipografia foi preso e levado para a capital mineira.
Conta-se que ele chegou a ser dependurado pelos dedos
na chefatura da policia mineira. É isso mesmo! Tortura
para milico pós-64 nenhum botar defeito! Mas, graças a
amigos influentes Benefredo logo foi solto. Ademais, nada
ficou provado contra ele, pois o autor da matéria publicada
no tal boletim nunca foi descoberto. Além de prender os
responsáveis, a ordem era fazer uma devassa, reter tipos,
prensas, tintas, etc. Na calada da noite a turma escondeu
os exemplares restantes, deixando à vista apenas impressos
inofensivos, de propaganda. Dono do maquinário, editor,
repórter, operador e tipógrafo, Benefredo tinha o maior
orgulho do seu “O Três Corações” e dos panfletos “Bomba”
e ficou agoniado pela devassa. Mas, e os tipos? Ora, Julio,
seu aprendiz de tipógrafo, tinha escondido a caixa entre os
canteiros, nos fundos do quintal. Você nem imagina a bronca
que ele levou do Benefredo. A caixa e muitos tipos ficaram
imprestáveis.
Gosto de ler jornais velhos. São as notícias que ficam
velhas. O jornal não. Ele é o instantâneo de um dia
registrado para sempre. As notícias caducam, os jornais ao
contrário são vivos e palpitantes e nos encantam no
primeiro lançar de olhos. Todos os que amam a literatura
têm, certamente, profundo apreço pelos jornais. Através
deles, muitos de nós tomamos conhecimento do mundo.
Imagine você, lá pelos idos de 1940 em uma cidadezinha
qualquer das Minas Gerais... O jornal que lá chegava,
sempre de edição do dia anterior, era o contato com o
resto do mundo. Naquelas páginas a gente tomava
conhecimento do resultado do futebol do Rio e São Paulo,
lia as noticias da política e da economia, as variedades e
coisa e tal. Melhor do que ler um jornal, só mesmo fazer
um! Esse era o espírito de Benefredo e seus amigos.
O susto não corrigiu Benefredo. Era um contestador
e assim seria até o fim de seus dias.
Logo depois do incidente ele e Júlio ficaram na moita.
“O Três Corações” não soltou nenhuma nova manchete
política, antes, ocupava suas poucas páginas com
trivialidades, como certa poesia marota onde um poeta
ferroviário criticava o Governo que não reajustava os salários
da Rede Mineira de Viação. A poesia polêmica chegou
manuscrita, dentro de malotes de correspondência do
Escritório da Rede e logo foi parar na primeira página do
jornal. Dizia:
“Se o Governo da União aumenta seu pessoal,
A Rede torna-se então, propriedade estadual.
Quando os cofres estaduais melhoram o funcionalismo,
Nos passam – que cinismo! A empregados federais.
E nessa tapeação assim, vai mais não vai,
A nossa situação é de criança sem pai.
Filhos sem pai!
Ora vejam! Que coisa feia e bruta!
Os empregados da Rede
São todos f.d.p.”.
Ainda não amanheceu, mas a cidade lentamente
desperta com seus ruídos costumeiros. Vou à janela e parece
que o verso ecoa pelos ares na forte voz de meu pai. Eu
me lembro de como ele repetia a poesia com ênfase ao
final, no palavrão, dando boas risadas. Sempre negou
veementemente que tenha sido de autoria do Bamba.
Espirituoso como era, ele seria mesmo capaz de escrever
tal coisa. Quem o conhecia poderia até apostar. Mas, de
fato, algum poeta anônimo resolveu presentear toda a linha
da Rede Mineira de Viação com seu protesto. Cópias
tipográficas daquela folha foram espalhadas por todas as
Estações da RMV. Dessa vez não foi caso de polícia, mas
provocou reações contraditórias. Os velhos, tradicionais,
serenos e compenetrados empregados da Rede criticavam
o texto principalmente pelo palavrão e até tentavam
defender a história de federal ou estadual. Os mais jovens,
os que trabalhavam na Turma, ou no Depósito, Oficina ou
no Escritório, cuidaram de reproduzir a poesia e logo, logo
toda a cidade a tinha em mãos.
O jornal acabou. “O Três Corações” deixou de circular.
Depois, muitos outros jornais surgiram na região. Quase
todos efêmeros, até 1957 quando nasceu o “Voz do Rio
Verde” que permaneceu por muitos anos noticiando as
coisas da cidade. Também esse passou. Hoje existem outros
jornais modernos e os antigos pasquins vivem apenas na
memória. Em nossa lembrança os jornais antigos adquirem
personalidade, transformam-se em letra viva: letras de
chumbo, sonhos de ouro. São retratos de seu tempo, pois
em suas páginas o cotidiano está registrado para a
eternidade. Pouco importa que não mais exista aquele
jornal. Pouco importa que os tipos estejam relegados aos
museus. Velhos tipógrafos... Posso imaginar-lhes no cuidado,
debruçados nos cavaletes das pequenas tipografias, catando,
uma por uma, as letras no fundo dos caixotins.
Na caixa de guardados de meu pai, as letras que
formam o nome de minha mãe dão testemunho do tempo.
Assim é o destino dos tipos, a palavra em pedaços, reunidos
para registrar fatos, dores, amores, tragédias e pilhérias...
Do chumbo à história.
É verdade. Não se deve mexer nas coisas dos outros.
Isso aprendemos muito cedo. Algumas coisas então, bulir
nelas é quase um sacrilégio. Nunca mais voltei a abrir aquela
caixa. Não me pertence e sim, à minha mãe. Com certeza,
ela própria também não mais a abre. Certas recordações
devem ficar assim, encerradas, cuidadosamente acomodadas
em fundos de gavetas, doendo baixinho, pois assim não
acordam a saudade adormecida.

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