sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

O barulho dos outros, Fernando Fabbrini

Foi na saída do cinema, no shopping, em pleno final de
domingo – àquela hora fatal. Naturalmente, saía eu
ligeiramente atordoado, porque os cinemas de shopping
são sinais claros da chegada iminente do fim-do-mundo.
Sempre me arrependo de todos os meus pecados por volta
dos dez minutos iniciais do filme, quando o casal ao meu
lado alcança o ponto médio da gigantesca caixa de pipocas
que devoram, solidários. Em seguida, seus maxilares passam
a estourar piruás em alto e bom som, alternando este ruído
insuportável com o borbulhar dos canudinhos em latas de
refrigerantes quase vazias.
– Mô, ainda tem Sprite? – sussurram, quase aos berros.
Há ainda a inevitável horda de adolescentes maleducados,
com seus celulares que jamais desligam, botando
os pés nas poltronas da frente, trocando impressões em
voz alta sobre o filme com a turma da fila de trás e dando
risadinhas diabólicas a cada ciclo de onze minutos. Já
cronometrei.
Uma vez, no auge do mau-humor, cheguei a
interromper uma cena emocionante de O Clã das Adagas
Voadoras e, na falta de uma delas à mão, voei eu mesmo
no pescoço de um destes jovens tão cordiais, buscando
atingir a jugular com meus caninos afiados. Infelizmente,
fui contido a tempo pela Miriam, que, prudente, sempre
traz de casa minha camisa-de-força.
Aposto que não vai demorar até alguém inventar um
cinema para espectadores especiais e exigentes como eu.
Na entrada, cada um assinará um documento em três vias,
jurando que permanecerá em respeitoso silêncio durante
toda a exibição. Choros, fungadas e risadas serão permitidas,
claro, por se tratarem de reações humanas muito
compreensíveis, provocadas pelo próprio filme. Fora isso,
nenhuma moleza: um sistema detector de celulares, sacos
de pipocas e latas de refrigerantes será instalado na entrada
da sala, e os transgressores serão punidos com chibatadas
em público, na praça da alimentação.
Cinema de shopping é isso: uma sessão de incômodos
diversos. Mas, passado o pânico inicial, sempre acabo
desistindo de ir embora, ponderando sobre o valor extorsivo
do ingresso que paguei. Concentro-me, evoco a meditação
Zen, envolvo-me com o filme, vou levando. E se consigo
sobreviver por duas horas aos horrores acima descritos, ao
sopro glacial do ar-condicionado e também aos estampidos
do som digital absurdamente alto nos meus pobres tímpanos,
já valeu meu programa.
Mas como eu dizia: foi depois do cinema. Primeiro,
enxerguei seu pescoço esticado, quando me avistou; e
depois lá veio ele, devastador como o tornado do filme.
Tentei escapar misturando-me com a fila da próxima sessão
que já começava, valendo-me de minha baixa estatura e
da roupa comum que usava. Inútil. Percebendo minha
manobra evasiva, ele cortou caminho por trás dos cartazes,
atropelou uma velhinha que saía do banheiro ajeitando a
saia e postou-se à minha frente.
– Amigo!
– Oh, que surpresa! – exultei, de puro cinismo.
– Que tal o filme? Gostou do furacão? – sorriu
escancarado e jogou a cabeça para trás, mostrando todas
as obturações douradas dos molares superiores.
Por um instante senti-me à frente de um roteiro
ilustrado de uma agência de turismo, um mostruário de
destinos exóticos. A camiseta, branca e impecável, trazia
uma vistosa paisagem de coqueiros e peixes-espada,
encimada pela palavra Cancún em letras coloridas. As
bermudas, em tom cáqui, tentavam com a ajuda de um
cinto de lona elevar sua notável barriga em direção ao
norte e, ao sul, faziam moldura a um par de pernas finas,
com pelos em inexorável extinção. Usava um boné azulmarinho
de Miami, exibindo um veleiro ao pôr-do-sol e
algumas silhuetas de gaivotas. No pulso, um estrondoso
relógio de mergulhador, daqueles dos quais se pode esperar
até a explosão de um providencial air-bag, em caso de
colisão no trânsito, mas que certamente não teria conhecido
outras águas além das tépidas duchas matinais de seu
chuveiro. Olhando discretamente para as meias azuis-claras,
cuidadosamente esticadas canela acima, divisei num relance
dois cândidos cactos bordados, igualmente chicanos. Enfim:
trajes obscenos.
Daí lembrei-me que amigos comuns, mordazes, já
haviam comentado sua recente mania de viajar, adquirida
depois da aposentadoria. Os destinos, invariáveis, eram
sempre tropicais, essas coisas caribenhas – Aruba, Bermuda,
Cozumel, Curaçao, Martinica, Bonaire, e tantos outros
preferidos pelos milionários norte-americanos. A mulher
voltava carregada de perfumes. Já ele montava seu
memorial em peças de guarda-roupa esportivo. Sua
preferência caía sobre camisetas – dezenas – e bonés – a
mais recente obsessão. Enfim, lembranças que confirmassem
sua histórica passagem por tais recantos turísticos. E que,
principalmente, não deixassem dúvidas – junto aos
familiares e amigos do clube – quanto à sua condição
privilegiada de turista freqüente.
Tínhamos sido amigos, sim, mas há muitos anos,
quando crianças, porque morávamos na mesma rua e
estudávamos no mesmo colégio. Depois, nossas vidas
tomaram rumos diversos; soube que ele fez coisas horríveis
– como se apadrinhar em políticos e puxar descaradamente
o saco de todos os chefes que teve. Mas subiu na vida. De
forma que viajava para Cancún, Aruba e Bonaire quando
quisesse e comprava todos os bonés que lhe dessem na
telha. De vez em quando nos encontrávamos – em festas,
solenidades, missas de sétimo dia. Nessas, sem bonés.
– Pois, é, precisava mesmo me encontrar contigo.
Impliquei de cara com o contigo, mas não havia mais
como fugir.
– Ué, o que houve?
– Ah, meu caro, não tenho mais sossego. É o tal
barzinho na minha esquina, saiu até no jornal, você leu?
Ninguém mais dorme no prédio. Fim de semana, então, é
aquele inferno até de manhã.
Não, eu não tinha lido, mas já suspeitava o porquê
do encontro providencial. No passado, andei brigando com
outros barzinhos de outras vizinhanças por causa da zoeira
noturna sem limites. Fui aos jornais e até à televisão,
participei de debates inúteis, denunciei o descaso das
autoridades e outros clichês que me ocorreram na época.
Mas não deu em nada, e o Quixote, derrotado pelos
moinhos, recolheu-se para lamber as feridas.
– Você não mexia com isso?
– Com o quê?
– Com o barulho dos outros, ué.
Sorri e fiz sinal que não, não mexia mais com barulhos
alheios. A vida foi me tornando mais tolerante ou mais
surdo, de forma que o barulho dos outros não me
incomodava mais como outrora – exceto aqueles de ordem
escatológica, bem desaforados. Notei que ele ficou um
pouco decepcionado.
– Você acha que vale a pena denunciar na Prefeitura?
Empertiguei-me como um velho conhecedor do
assunto.
– Depende. Se os barulhos alheios ocorrerem na sexta
ou no sábado, pode ser que o Poder se manifeste, ainda
que de forma muito preguiçosa. Mas se for durante a
semana, pode desistir. A fiscalização não funciona de
segunda à quinta. Para o Poder, portanto, não é possível
existir poluição sonora em dias comuns, porque não há
ninguém para constatá-la. Sacou?
– É mesmo?
– Não espere demais...No máximo, vão mandar um
fiscal...Ou dois... Isso se não ficarem na campanha educativa.
– O quê? Campanha educativa? Que absurdo!
Pacientemente, expliquei a ele que o Poder, de maneira
geral, quando não quer ou não sabe resolver algum
problema, zás! – faz uma campanha educativa. Assim, eles
fingem que estão cuidando do assunto e o destinatário da
campanha sente-se completamente à vontade para
transgredir ainda mais. Não correrá nenhum perigo, porque
toda a questão ficará restrita a um out-door criativo e a
alguns cartazes pregados nos saguões dos órgãos públicos,
que o tempo se encarregará de desbotar.
– É o mesmo caso do cerol dos papagaios –, comentei.
– Um perigo! – concordou. – E ninguém faz nada?
– Claro: fazem campanhas educativas, do tipo “Não
use cerol! Isso pode ser perigoso para sua comunidade!”
Agora andávamos lado a lado, olhando as vitrines do
shopping. Foi quando ele falou no Seu Ademir.
– Fosse no tempo do Seu Ademir... Lembra dele? –
disse, enquanto sungava as bermudas para a latitude norte.
Puxa, é mesmo. Seu Ademir! Claro que me lembrava.
Seu Ademir era o nosso guarda noturno, naquela época
em que as noites tinham guardiões porque o silêncio era
de ouro. Ora, o Seu Ademir. Um exemplo de dignidade e
simpatia que o tempo apagou de minhas lembranças, junto
com antigos amores, velhas tristezas e músicas do Fagner.
Difícil seria precisar sua idade naquele tempo, porque
quando se é criança todos os adultos são gente velha.
Teria o quê? Quarenta, cinqüenta anos?
Seu Ademir exercia sua autoridade como convém a
um guarda – com zelo e dignidade. Hoje, os guardas
genuinamente nacionais podem ser divididos em duas
categorias: os truculentos e os legais. Os truculentos povoam
as páginas dos jornais quando ainda restam à vítima
coragem, disposição e dentes para denunciá-lo ao
corregedor ou à imprensa. Os legais, ao contrário, detestam
aparecer. Chegam, identificam a providencial transgressão
e – oba! – imediatamente vêem uma forma de tirar algum
partido. Aí pedem uma cervejinha, ou duas, ou ainda até o
equivalente a algumas caixas de Chimay Triple, a cerveja
belga aromatizada com frutas silvestres que os monges
trapistas fabricam.
O que me lembro é que Seu Ademir resumia-se a
uma vaga presença tranqüilizadora após meia-noite porque
as pessoas tinham vergonha na cara, cuidavam de seus
próprios barulhos e ficariam extremamente envergonhadas
caso precisassem ser advertidas pelo nosso guarda-noturno.
Assim, o trabalho de Seu Ademir consistia apenas em zanzar
pelos nossos quarteirões, balançando o cassetete e apitando
de vez em quando – sabe-se lá para qual finalidade. Vez
por outra, ainda cumpria a nobre missão de orientar um
bêbado perdido ao seu próprio portão. Dormia-se em paz.
E barulho, quando acontecia, era geral e pra valer – como
no dia da explosão do paiol, que quase mandou o bairro
inteiro pelos ares.
Hoje, não. Vivemos cada vez mais à mercê dos
barulhos particulares e mal-educados. A última novidade
da agressão sonora é a Makita Histérica. Você já conhece a
modalidade? Prepare-se. Perto de você existe um prédio e
o prédio tem consultórios de dentistas, psicólogos, médicos,
advogados. Esse pessoal nunca está satisfeito com a
aparência de suas salas. Há sempre um balcão de granito
para trocar, um piso para refazer, uma coluna para revestir.
O problema – para os ocupantes das tais salas – é que as
suas preciosas consultas não podem parar dois ou três dias
por conta da reforma. Mas as noites existem é para isso,
ué. E aí, através da fantástica alquimia cem por cento
brasileira, o problema deles passa a ser nosso também,
olha só que curioso. Os pedreiros chegam ao crepúsculo,
quando o dono está indo embora. Trocam palavras à meiavoz,
combinam tudo e aí... Ligam a Makita Histérica! Isso
significa que, num raio de um quilômetro, todos aqueles
vizinhos que prezam o silêncio da noite estarão
amaldiçoando o dentista em uníssono, muitas vezes até o
amanhecer, enquanto a Makita Histérica corta a pedra, o
metal e a fórmica, enlouquecida. Já o dentista, cansado de
mais um dia de trabalho, estará roncando em seu quarto,
gozando o repouso merecido – a milhas de distância.
Há muitos outros barulhos que vocês, pessoas normais
e equilibradas, jamais perceberiam – enquanto eu, neurótico
auditivo, sofro sozinho. Música ambiente de lojas –
geralmente funk de terceira – que me faz sair correndo
antes de consumar a compra, abandonando o balconista
literalmente com as calças na mão. Locutores de publicidade!
Ah, as ofertas de eletrodomésticos, gritadas em andamento
prestissimo na televisão! Churrascarias lotadas, onde a
música caipira-chique disputa, em volume, com as
gargalhadas das famílias já embebedadas de caipirinha.
Pagodes. Academias de ginástica. Trios elétricos! Cultos
evangélico-musicais! Sessões coletivas de epifania popular!
Alarmes inúteis de carros e residências, que disparam cinco
vezes durante a noite, enquanto o assaltante já descansa
em Copacabana!
As festinhas de crianças merecem um tratamento
especial. Nos últimos anos elas passaram a competir em
pompa com as solenidades de coroação da Rainha da
Inglaterra. Antigamente, festinhas de criança se resumiam
a um prato de docinhos com guaraná meio morno e
sanduíches de pão-de-forma que as mamães preparavam
– elas mesmas ou, no máximo, com ajuda de uma tia.
Presentes eram lembrancinhas, muitas vezes singelas caixas
de sabonete compradas na farmácia do bairro.
– Não repare não, viu, Dona Tonica?
Ninguém reparava em nada, éramos mais felizes e
civilizados. As crianças brincavam de pegador, cantavam
parabéns; alguma sempre comia demais e vomitava – enfim,
coisas normais.
E hoje? Hoje as festas são multi-temáticas, baseadas
no mais novo personagem da TV, e planejadas, no mínimo,
com seis meses de antecedência. Desconfio que o
aniversário da criança, em si, não tem mais a menor
importância. Conta, sim, mais uma ocasião para a realização
dos delírios performáticos de nossa classe média. Imagino
mães e pais ansiosos, disputando com unhas e dentes as
datas disponíveis no salão de festas. Ou avaliando a
possibilidade de se contratar um carnavalesco da Mangueira
para produzir a ala dos brigadeiros. E as atrações? Teremos
o dinossauro cor-de-rosa que dança rock ou o grupo das
Amazonas Bailarinas da Tailândia? Os cachês? Um absurdo,
mas tudo bem. Já ao chegar, escuta-se o ruído a três
quarteirões de distância daquele local para onde fomos
arrastados pela convivência social inevitável. Entrega-se o
presente a uma mocinha muito gentil, que nem parente do
aniversariante é. Com isso, nem podemos ganhar em troca
a alegria de dois olhinhos brilhantes ao receberem o nosso
pacote. No máximo, um asséptico cartãozinho assinado
pela mãe, dias depois. Adultos são confinados a uma área
mínima do salão, enquanto o restante fica reservado aos
Quatro Cavaleiros do Apocalipse. E com tanto barulho
sequer podemos conversar porque, acima das relações
familiares e de amizade, reina agora a tirania do som! Ah,
o som!
Na minha humilde leitura dos silêncios e ruídos
globalizados, tudo isso tem uma explicação. A culpa é dos
tempos, esses tempos de exageros, de limites que viraram
fumaça. Conseqüentemente, a vaidade, que já era muito
exibida pela própria natureza, ficou ainda maior. Tudo é
grande, absurdamente exposto, visível, explícito. Outro dia,
no banco, os integrantes da fila de um dos caixas – inclusive
eu – tomaram conhecimento da tensa rede de acordos prédivórcio
de uma fina senhora que conversava ao celular
com seu advogado. Falava altíssimo, indignada, como se
estivesse em casa. Ao cabo de alguns minutos, tivemos ali
uma experiência interativa do mais alto nível, principalmente
nos trechos da conversa em que ela se referia ao futuro exmarido
como “aquele safado”.
Barulhos dos outros não são apenas episódios sonoros.
Vejam as armações dos óculos. O que era uma grife discreta
nos bons anos sessenta, e que falava por si só, transformouse
no imenso nome do fabricante gritado, sim, de cada
lado das hastes, para a alegria da perua extasiada. Isso é
ou não é, também, uma forma odiosa de barulho alheio?
Na saída do shopping, já desvencilhado do turista
caribenho e de suas logomarcas gritantes, passei pela vitrine
da Lacoste. E comentei com a Miriam:
– Você não acha que andaram aumentando também
este jacaré?
Ela pegou-me pelo braço e empurrou-me
carinhosamente em direção à porta, movida por sentimentos
humanitários.

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