sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

A tropa do Morgado, Cida Chaves

“Sertão é onde manda quem é forte com astúcias. Deus
mesmo, quando vier, que venha armado”. Guimarães Rosa.
Vozinha contava recordando as acirradas discussões:
– É imprudente levar o menino com apenas seis anos
numa viagem tão longa.
– Mas ele é o herdeiro de dois morgadios, respondeu
Domingos.
– Não entendo de morgadios. Aqui não existe isso,
ela disse.
– Os bens de família são vinculados em Portugal,
não podem ser divididos nem alienados e João é o
primogênito das Casas da Fraga e de Paredes. São bens
valiosos que um dia serão regidos por ele. Isso não é apenas
um privilégio, mas uma responsabilidade muito grande
manter as conquistas materiais e culturais, o senso ético,
estético, desenvolvido por gerações e gerações. Ter
desenvolvida consciência de estirpe a ser preservada e
depurada. Isto é passado através dos atos, as palavras não
transmitem...
– E como se faz isto!
– Educando ou nos processos de iniciação.
– Ora Domingos, os índios...
– Enguele, não são apenas os índios. São todos que
possuem algo a preservar. Um morgado não se une a um
qualquer, é um fidalgo, filho de alguém, acumula deveres
mais do que direitos. Um fidalgo jamais se embriaga com
álcool ou paixão. Jamais se deixa seduzir ou intimidar.
Deve ser dono de si mesmo... É...
– É demais para uma criança...
– Para um menino, não para um morgado.
– Esta viagem não tem sentido, ela insistia. O que
tem a ver com os morgadios?
– O menino aprenderá a dominar a sede e a fome, a
controlar o corpo e as necessidades. Aprenderá a viver o
desconforto, desfrutar os prazeres sem arrebatamentos e
responderá às dores sem melancolia. Poderá mais tarde
liderar uma família e ser sábio como Salomão.
– Numa tropa, nesse sertão...
– “Experientia praestantior arte”, mais vale a
experiência.
– “In propria pelle quiesce”. Contenta-te com a tua
sorte, meu pequeno João, ela comentou. Enguele vivia em
sobressalto. Pressentimentos demais tolos rodeavam dias e
noites suas.
João tinha apenas seis anos de idade. Era o ano de
1868. O mesmo em que morrera Vó Donana. Enguele, sua
neta, casara-se com o português Domingos José, que até
então gerenciara todas as fazendas de Donana. As de gado
vacum e muares, desde a sede Umbuzeiro, Ingazeira e
Papagaio. Supervisionava os retiros de Lagoa, Pinga, o sítio
das Antas entregues aos vaqueiros. Enfim, todos os bens
que constavam do testamento de Donana. Depois da morte
desta entregou-os a sua sogra, Bernardina, a herdeira de
tudo. Domingos e Enguele compraram então uma casa na
cidade onde seria mais fácil a educação dos filhos.
Chega em visita um dos primos, Ângelo Custodio de
Almeida, capataz, conhecedor das estradas e dos negócios
de tropas, visto ser afeito a essas empreitadas. Sempre viajava
para o Sul, freqüente nas feiras de Sorocaba em busca dos
famosos muares gaúchos.
Pôs-se a falar sobre o comércio de tropas e tudo o
que o envolvia. Muito lucrativo. Lamentava a sua falta de
capital. Ângelo descrevia as aventuras que jamais sonhara.
Cavalgada vagarosa em estradas boiadeiras, labirintos, rios,
caminhos abrolhados, grotas abrigantes, grotas secadas. Um
desafio. Serras que tapavam o sol, pradaria a perder de
vista. Não fossem as mirradas árvores deles a orientar com
a sombra a rota, não se sabia onde o Norte ou o Sul. Ora a
tropa sacolejava morna entre os pousos, ora despertava
num galope pelos descampados acordados pelos cães
farejadores de animal qualquer que servisse para almoço
ou diversão. As caçadas de supetão alvoroçavam. A tropearia
marchava no ritmo sonoro dos guizos presos por coloridas
fitas no pescoço da madrinha, que na frente puxava o
cordão de mulas obedientes. Seguiam em alaridas prosas e
cantos.
Domingos possuía capital suficiente para tamanha
empreitada. Desde esse dia, ficou seduzido pela aventura
e convencido de que devia investir parte de seu dinheiro
na compra desses muares necessários. Todo o transporte
dependia desses animais. Havia o que levar de um lugar a
outro nesse imenso país. Gente comprava e vendia,
importava e exportava o que houvesse por bem fazer. E os
cavalos de raça? Paixão antiga de fidalgo acostumado bem
ou mal, não se sabia.
Abandonou os planos de estabelecer-se em Caetité.
Juntamente com outro primo, José Maria, homem de sua
inteira confiança, organizou em alguns dias a viagem a
Sorocaba para a aquisição das mulas.
Nas poucas horas de intervalo entre os arranjos, as
discussões com Enguele esquentavam. Por fim, inúteis os
argumentos todos, contratados o arrieiro, o barqueiro,
barranqueiro prático de atravessar rios e enchentes, o
quirguiz competente nos negócios de compra e venda em
todo lugar, os trastes adequados, ela tomou do rosário e
começou a desfiar ave-marias. De nada adiantou falar de
avisos, de sonhos premonitórios. Em vão.
De gibão, calça, chapéu de couro e correia enfeitada
de tachas, a pele rosada de português e o porte elegante,
Domingos mais parecia um barão fantasiado de vaqueiro.
O menino, vestido de couro, segunda pele diziam os
capangas, montava o cavalo como gente grande.
Acostumado que estava a seguir o pai nas visitas pelas
fazendas e sítios, ia orgulhoso acompanhá-lo na aventureira
investida de negócios novos.
Partiram guiados por Custódio, o melhor conhecedor
dos caminhos e dos comércios de tropas do sertão.
Rumavam para o Sul com almocreves, madrinheiros,
vaqueiros, a jagunçada necessária. Enguele pressentia
descida aos infernos. Rezava espantando pensamentos.
Principiavam a jornada, varando terras de sabidos
tabuleiros forrageiros da caatinga espinhenta, xiquexiques,
mandacarus de braços para o céu a pedir chuva, cabeçasde-
frade no chão áspero e seco, pedregosa ameaça de
escorregos, serras ladeirosas distanciadas umas das outras.
Paisagem costumeira de clima quente e áspero, pastagens
ralas entre umbuzeiros refrescantes de sede, juazeiros
esconderijos de jacus carne de caça, pequis gordurosos,
juremas, angicos rosados, fedegosos amarelos suavizando
a poeira.
Viagens penosas, demorados meses. Quatro primeiras
léguas vencidas acamaram cansaço em acampamento
improvisado.
O cozinheiro desceu o jacá de caldeirão e sua
tranqueira de cozinha acolchoada em palhas de milho: um
casal de panelas de ferro, pratos e canecas esmaltados,
colheres, o bule de café e a trempe de ferro para pendurar
as panelas sobre o fogo. Por último, do alvejado saco de
trem retirou outros sete com feijão, arroz, toucinho, farinha
de mandioca, sal, açúcar e café. Tropa rica levava carne de
sol e lingüiça defumada.
Aliviados os animais dos arreios e cargas os arrocheiros
conduziram-nos à pastagem ainda verde sob um umbuzeiro.
A trastaria foi disposta de modo a alevantar canseira de
todos e ficar protegida. Dependuradas as redes enxotamosquito
de agave esfiapado deitaram-se João e os patrões.
Os almocreves arrancharam-se sobre os couros estendidos
e os embornais de travesseiro.
Acobertavam as colchas tecidas na fazenda, cheirando
ainda ao manjericão dos armários. Vento frio e áspero de
noite no planalto. A fogueira amornava o ambiente
enquanto afugentava os animais.
De madrugada acordou o madrinheiro, armou o tripé
de ferro sobre as brasas e pendurou a chaleira ao modo
dos ciganos. Logo o cheiro do café se espalhou. Retirada a
chaleira, pendurou-se o caldeirão e o aroma dos temperos
invadiu as narinas a salivar apetites. Os defumados
perfumavam o feijão que cozinhava devagar. Torrada a
farinha e refogadas as folhas de taioba colhidas ali mesmo,
todos pegaram suas colheres e cuités para a primeira
refeição da comitiva. Terminado o derradeiro gole de café
com raspadura alguém se levantou e, num vozeirão, deu
graças pela travessia e pelo alimento. Todos o imitaram,
acostumados com o ritual. A sobra foi recolhida para o
almoço depois de mais quatro léguas de jornada.
Os acertadores arriavam a tropa, ajustavam as cargas
nos animais, enquanto Enedino e João madrugavam o
cerrado atrás de iguarias outras, mel, ananás, provisão dos
pequis que Deus oferecia e os outros traçavam as próximas
léguas no rumo do Sudoeste . A estrela d’alva ainda
mostrando rumo eles se puseram a caminho. Seca braba.
O mato estalava sozinho assombrando o medo de
sede, bicho peçonhento, onça faminta naquele sertão
esquecido de chuva.
Dificuldades encontraram no descanso à beira da
vereda, presente do céu deitado n’ água qual espelho de
buriti, calmaria de asa branca matando a sede. Subitamente
vem a onda cabeça d’água das cabeceiras de rio pequeno,
do Verde Grande não podia haviam passado já, do São
Francisco não se sabia. Chegou enchente sem avisar
carregando o que perto havia, a bruaca de pequis boiando
secou vereda abaixo a água na boca. Não foi provisão
toda, acontece capricho do destino, estava a mula do jacá
de trastes amarrada mais longe.
Com olho espichado, olhando o mel enlameado, os
pequis que fugiam, João ajudava a peãozada a catar o que
dava e ouvia: – Trabalho de criança é pouco, quem enjeita
é louco. A enchente não deixa andar hoje. Assim é
descansar em hora errada. Melhor que cortar buritizeiro
pra fazer ponte e assim que deitar a dita a água abaixar.
Consolava esperar. Entre uma fazenda e outra os
pousos irnprovlados acoitavam. Mais um dia para chegar
ao vilarejo de Montes Claros e remendar os estragos.
Custódio aquinhoava amigos, fazendeiros abastados
donos de ranchos para tropas, pastos verdes e ademais
todas as fazendas que se prezavam tinham, na casa-grande,
seus quartos de hóspedes, camas de dossel, lençóis finos
da Bretanha guarnecidos de sóbrios bordados e rendas,
quartilha d’água na cabeceira, copos, bacia de prata e,
debaixo da cama, o urinol de louça inglesa. A hospitalidade
sertaneja farturava no café da manhã com muito leite,
tapioca com coco, cuscuz com manteiga, inhame, banana
frita, queijo de coalho.
A jagunçada dormia nos ranchos e lá cozinhava,
igualmente como nos acampamentos e estalagens salpicadas
pelos caminhos.
Apiando numa dessas fazendas de pernoite trocaram
as roupas de couro poeira e suor, chapéus, algibeiras rudes
de uso no sertão por outras mais adequadas às cidades do
Sul, conselho hábil do quirguiz, para que bem
impressionassem. Os dias contavam-se as dezenas.
Em Minas, hospedaram-se na Fazenda do Engenho,
lugar onde Domingos sabia da existência de animais seletos,
procedentes da Coudelaria de Álter do Chão. Eqüinos dos
mais afamados e estimados pelos nobres portugueses. A
oportunidade se oferecia. Estava no caminho. Chegar até a
Coudelaria Real de Cachoeira do Campo seria muita
extravagância, um desvio de muitos quilômetros. Valiamse
de tudo o que ficava no caminho para São Paulo.
Domingos José, português, educação fidalga, para
quem os cavalos de raça eram regalos rotineiros apreciava
as caçadas em animais de porte elegante. Pousaram na
fazenda famosa pelos seus jumentos e cavalos de raça e
comprometeram-se a comprar alguns, na volta. Eram de
temperamento dócil e apropriados para a montaria.
Isto implicava em cuidados devida e previamente
pensados. Os cavalos caros acostumados a pastagens fartas,
quase que tratados como gente, careciam de trato apurado,
escovações. Bicheira, nem pensar. Haviam de ser
protegidos. Custavam uma dinheirama.
Domingos fazia essas aquisições com a intenção de
reproduzi-los nas extensas terras do sertão. Na volta, então,
apanhariam os animais. Certeza tinha de que ouviria muitas
criticas: denguices de português. Mas preferia reproduzir e
vender cavalos do que negro, como tantos faziam no sertão.
Conversaria sobre isso com Leolino Xavier, acusado
de comprar negros da Bahia para os seus cafezais, em São
Paulo. O Cotrim lhe dissera que não havia outro modo de
se obter mão de obra no país. Fosse como fosse ele não
estava acostumado a vender gente, preferia lidar com os
cavalos. Donana descartava os rebeldes, melhor que surrar
cristãos. Não segurava na senzala quem não queria ficar
Nem tinha feitor ou capitão do mato. Sadoc que cuidasse
de convencer os desrespeitosos. ~
A romagem prosseguia em igualada paz, conversa
fiada enchendo o tempo, gabolices, prosa galhofeira do
Zé Maria gozando as proezas da capangada. Dois meses
de distância iam.
Deixaram a Serra do Espinhaço para trás, pegaram a
Mantiqueira infestada de cobra e jaguatirica a assustar os
cavalos. Debandada alta hora de noite minguada de lua,
escura, as estrelas do Cruzeiro e as duas do Centauro
cintilavam. Pareciam espreitar o silêncio. De repente o
relinchar dos cavalos acorda a todos e as desvairadas
correrias, qual saci lhes fazendo tranças nas crinas, levantam
a tropeirada a tentar detê-los.
– Tem onça! Grita o medo de alguém.
– Qual onça, qual nada. É jaguatirica. Assusta cavalo,
não gente.
– Qual o quê. A bicha é faminta. Rondava os restos
em volta da fogueira.
Gastaram a manhã para arrebanhar a tropa. João via
o pai e Ângelo Custódio impassíveis diante dos estorvos
adiantando ordens com firmeza. Sadoc esguichava
competência.
Nas brenhas escarpadas do Sul mineiro agregaram
Adeulino. Mameluco, ajudante de capitão do mato,
escapava desforra de negro fugido quando os sertanejos
lhe salvaram a vida. Penhorado ficara o astuto andarilho,
guia de direitura certa por aquelas bandas de paisagem
alheia. Sentia longe o cheiro dos quilombos e prudencial
era evitar embates na terra estranha.
O clima abrandava. Os Ipês amarelos e pau d’alhos
cantadores da plena primavera estavam de folhas novas
anunciando o verão e as chuvas.
Chegaram à Sorocaba quando a feira estava a terminar.
Não encontraram tropa em condições de viajar. Foram,
então, para Tatuí onde havia animais ainda gordos.
Compraram. Logo trataram de voltar. A quantidade de
muares exigiu, antes de equipar a tropa, contratar mais
gente e planejar o retorno, não mais de uma pequena
comitiva de sertanejos com as mercadorias do sertão, mas
um batalhão de escoltas, capangas desconhecidos
contratados para as centenas de muares e a carga de
mercancias importadas de delicadezas e luxos. Era
aproveitar o esforço da romagem e levar o máximo possível.
A parafernália para o retorno da tropa e as mercadorias
foram compradas em Sorocaba. Além de preços melhores
oferecia-se ali o tudo desejado que o mundo vendia e
artesãos de toda a parte comerciavam uma grande variedade
de trastes e objetos. Era uma praça de intercâmbio das
melhores abastecidas do Sul e fácil de adquirir as provisões
necessárias ainda frescas.
Ao descer optaram por transportar gêneros de alto
valor pela raridade e pequeno volume: peles, couros, fumo,
tecelagens e pelegos artesanais, as pedras e metais preciosos
fartos no sertão. O algodão tinha melhor caminho para
Salvador, via Porto de São Félix. E o sal, a mercadoria mais
valiosa, traziam o que pensavam suficiente acondicionado
nas bruacas de couro. Mais para o consumo, do que para
a venda. Sua raridade permitia usá-lo como forma de
pagamento, se necessário.
No entanto, nunca se sabe. Na volta a boiada poderia
consumir muito sal, na falta de pastagens. Era certo.
Desceram em agosto no meio da seca e voltariam na estação
das chuvas. Só Deus sabe de tamanha travessia. Se a água
for demais o sal mela. Era hora de trocar o excesso pelo
que era escasso na Bahia: cabeções elaborados, cabeçada
de platina, selas sofisticadas para substituir as selagotes do
sertão, luvas, corotes, “gongolos”, sobretudo tecidos finos,
vinhos, gêneros que são comercializados nas praças de São
Paulo.
O retorno sem eventos, tempo igual modorroso até a
Fazenda Babilônia do primo Leolino Xavier Cotrim.
Apearam à porta da Casa-Grande rodeada de terreiros de
café. Festança de reencontro, notícias da família, dos amigos,
do sertão bordado de lembranças.
Descansaram até as festas de fim de ano na fazenda
do conterrâneo Leolino. Estranharam a falta das frutas
européias, típicas da época, sobretudo as portuguesas,
exigências a que eles jamais renunciaram. Comemoraram
com o lauto banquete fartura de assados, farofas, vinhos e
champanhes franceses, doces de frutas variadas e os queijos
que recordavam os de Estrela, com a cura no ponto. Houve
missa celebrada na capela da fazenda. João comentou mais
tarde esse costume de construírem capelas nas fazendas e
ficara impressionado com a beleza do altar. As pinturas do
teto lembravam a casa de Vó Donana, em Caetité, dizia.
Ao deixar a fazenda amiga, depois do Natal, as
dificuldades somavam-se. Era plena a estação das chuvas.
Adotaram sair de madrugada e pousar antes do entardecer.
Resto de dia tempo para caça, pesca, colheita de frutas, de
palmito.
Atingem a Mantiqueira metem-se entre as névoas,
resvalando desfiladeiros. A tropa entranha vegetação cerrada
escalando penhas e fraguedos. A água despencava do céu.
As capas do Oriente caiam sobre as ancas dos animais
como cabanas ambulantes a proteger cavaleiros e cavalos.
João se via abafado sob o manto grosso e pesado a defendêlo
da chuva e da ramagem que fustigava.
Acima do amontoado de nuvens arranchariam na
primeira estalagem. Cavalgavam os desafios no dorso dos
rochedos, -venciam lufadas de ventos, uivos lancinantes
entre a vegetação adentrando a tempestade anunciada,
trovejando horas atrás.
Raios cruzavam o céu. Trovões estremeciam a terra.
Clarões abriam e fechavam o abissal espaço e borbotões d
água despencavam as nuvens negras. Relâmpagos,
ziguezagues serpentes de fogo feriam a mata como nunca
viram. Os raios cada vez mais ensurdecedores caiam nos
penedos e a chuva descia furiosa. Chovia, chovia. Cavalos
e cavaleiros amedrontados todos tentavam conter os muares
desencorajados. Nas montanhas as tempestades mostram a
força dos céus, os horrores do inferno, a fragilidade humana
indisfarçável diante do fogo tempestivo, voraz, a esganar o
que pela sua frente se interpõe.
João escreveria um dia esses sobressaltos horrorosos.
Assistira o pai antes entre os papeis da Umbuzeiro ou em
meio ao cotidiano dos vaqueiros, agora ordenando
persuasivo, dogmático, o seguir em frente apesar dos
estampidos de fogo, aproveitando o clarão fugaz a assegurar
as trilhas certas entre os penhascos.
Vencida a marcha temerária atingem a cimeira
esperada e um panorama verde se abriu. A terra se oferecia
de presente. Ele jamais se esqueceria daqueles raios
beliscando a terra, os trovões, ecos retumbando pelas
entranhas das gentes. Nunca o abandonaria a sensação de
insignificância. Pela vida afora a imagem indomável da
natureza acompanhou-o. Aprendia para sempre, qual
desvalido ser, que a bonança sucede a borrasca.
Além, avistaram o primeiro rancho rodeado de
pastagens, alguns capões de mato e árvores frutíferas. Era
a promessa do céu.
Arrancharam. Domingos se dirigia aos homens ali
ancorados, os arrieiros e capatazes empilhavam os teréns,
os peões livravam os burros das albardas pesadas e
incômodas, das cangalhas e coxins, dos cabrestos, desatavam
as correias de couro cruzadas nas subidas e descidas das
montanhas, as sobrecargas, para enfim pendurar-lhes no
pescoço o bornal com a ração de milho necessária. Por
último passavam-Ihes a almofaça para depois soltá-los no
pasto, perto do rancho. Então afrouxavam aliviados do
cansaço.
– Tempestade feia no alto da serra, exclamou o
rancheiro, enquanto picava seu fumo. Vi os raios
chicoteando serra-acima. Chuva braba.
– Pensei de não chegar, respondeu Custódio,
conquistando a camaradagem do rancheiro, conhecido
barganhista. Esperteza que sobrava.
Sem camaradagem não se granjeava a boa vontade
essencial quando na dependência de estranhos, dizia. Sem
ela não se chegava a lugar algum. Uns precisam dos outros,
ainda mais quando tratamos com ciganices, afirmava. O
rancheiro tinha fama de ser um dos mais sagazes por aquelas
fraldas da Mantiqueira. Arguto e dissimulador davam-lhe
até o apelido de cigano.
O homem acudiu com o milho necessário, contou as
rezes para efeito da cobrança de pastagem, se dispôs a
pregar as ferraduras necessárias e alveitar os animais. Era
prático nisso, disse. Ofereceu-se para curar as pisaduras, os
aguamentos, a destiladelra, o catarrão, a papeira, o
garrotilho, a peste da goela, qualquer moléstia, todas ele
aprendera com os mais velhos. Até a peste de escancha,
que tratava com as frutas pequenas de “paulista”, como em
Sorocaba. Só não tratava de “erva brava” coirana, erva
lôca, icó, alecrim do brejo, mamoneira, timbó. Essas não
havia nas suas pastagens e se haviam comido foi pra lá da
serra, não tinha mais remédio. Vendia bem os seus serviços,
via-se.
Enquanto Custódio e Domingos ganhavam a simpatia
do caboclo, José Maria averiguava as condições do rancho:
o telheiro sem buracos, as pilastras de madeira, as paredes
de adobe e observava o chão onde os couros seriam
estendidos. Como se fossem camas. Os couros protegendo
as cargas, jacás e albardas paralelas a dividir o espaço,
improviso de dormitórios.
À hora das noas a arranchação estava preparada. Os
animais já vagueavam nas pastagens. Os peões estenderam
as capas para secar. Arrumaram a trenhama. Os volumes
maiores apertados dentro do rancho cercavam uma área
de três metros em quadra, na qual, num dos cantos ficava
uma passagem para o interior desse improvisado
compartimento. Noutro canto guardavam os fardos mais
valiosos, quase sempre menores e mais sujeitos ao roubo.
Do lado de fora dessa estranha parede dispunham as
cangalhas umas sobre as outras, depois as cilhas
dependuradas juntas, qual fitas coloridas, os cabrestos, as
bruacas, os odres e couros. Tudo ordenadamente ajeitado
de maneira que quando fossem retirados nenhum seria
esquecido. As selas mais ricas empilhavam-nas perto da
bagagem do senhor da tropa, Abriam-se as redes nos apoios
apropriados e se entregavam, os mais abonados primeiro,
ao justo descanso. Os insetos lhes permitiriam a sesta graças
às redes de juta tecidas a maneira dos nativos: esfiapados
fios dependurados a impedir a entrada dos bichinhos.
Do céu quente caia a paz cansada como eles, um
clima pesado e morno de preguiça onde apenas se ouvia
o murmúrio pachorrento do riacho a correr perto do casebre
cercado de bambu. Nenhuma brisa. Nada bulia as
bananeiras, as mangueiras, as árvores ramalhosas
cumpliciavam o entardecer.
A sesta podia perder-se em horas. Custódio
determinara que na manhã seguinte prosseguiriam a
viagem.
O sol se escondia devagar atrás da serra, as sombras
se estendiam adormentadas, os cantos últimos do mato
sussurravam os suspiros do dia. Pelo rancho caiu um arrepio
vago de saudade. A rodada de cachaça passava de mão
em mão. Era esquecer as repetidas tempestades na
Mantiqueira durante a travessia.
Nas serras as noites frias arremedavam-se úmidas As
violas ressurgiram das bruacas para desabafar a alma
sentimental dos caboclos:
“No dia vinte nove
saimo do sertão
zio no consolo
Chicão no lampião.”
“Maria, por caridade,
não ama tropeiro, não.
Tropeiro é home bruto,
bicho sem combinação.”
“Morena, por caridade,
num ama tropeiro, não.
“Todo tropero é tretero,
todo cigano é ladrão.
Tropero compra fiado,
deixa a conta pro patrão”.
“Maria, escute o conselho,
sossega seu coração.
Maria, por caridade,
tenha de mim compaixão”.
O canto continuava lamentoso:
“O tropeiro não goza prazer.
Sua vida e continuo penar;
Chega de tarde no rancho,
que trabalho, meu Deus, vai dar!”
“Lourenço, abra a porteira,
que a tropa do Sérgio evem.
Tem uma mula de guia,
que não respeita ninguém.”
Alguns cantavam acompanhando a viola, outros
trocavam notícias, histórias no silêncio da noite, superstições,
crendices, receitas de mesinhas e feitiços pra quebrar a
inveja. Os mais cansados adormeciam logo sobre as peles
enrolados nas cobertas tecidas com os trapos coloridos.
Serras ladeirosas subiam, desciam, varavam várzeas,
florestas, capões, dia após dia sem mudança outra que
arrumar as bagagens em ordem, ocupando o menor espaço
possível, para dar lugar a outros. Cada tropa nos ranchos
maiores fazia cozinha própria. Depois das refeições
trocavam informações sobre as regiões percorridas, falavam
das aventuras amorosas, enquanto as violas de Queluz
tangiam acordes cantadeiros de versalhadas langorosas,
trovas pesarosas:
“Você me chama tropeiro,
eu não sou tropeiro, não.
Sou arrieiro da tropa.
Tropeiro é meu patrão.”
“Comendo feijão com torresmo,
escolher pra cama um lugar,
triste vida do tropeiro,
não tem ninguém pra amar”.
Custodio gostava daquela vida, dos gorjeios das violas,
do proseio sertanejo, versos-de-pé-quebrado, arrimado rude
de sentimento. Tropeiro rico cuja probidade inquestionável
garantia o transporte das mais requintadas e delicadas
mercadorias: ouro e pedras preciosas, missivas de confiança,
dinheiro em espécie, numerários da metrópole para o
interior, pratarias, sedas, vinhos, espelho, armas e munição
e quantos aparentes nadas de frivolidades, rendas, lenços
e tranças de cabelos loiros ou negros. Vestido em roupa de
excelente qualidade, chapéu do Chile, echarpe de seda
com presilha de ouro, punhal de prata no cinto. Não por
agressividade, mas segurança, prudência que leva um
homem a valer por dois. Objeto cortante indispensável,
tanto quanto o cantil de prata pendurado na cintura.
Serventia contra inimigo, quase tudo: cortar mato,
destrinchar caças, limpar peixes, consertar arreios.
Quando o desandamento de caçador graduava com
a fome, acossava animais a faca afiada e fininha de ponta.
Preparava a carne para assar no espeto, descascar ananás
do campo, preparar a charqueada se preciso. Impunha
respeito. Nas esticadas prosas cavalgadas picada afora,
Custódio exaltava a beleza da profissão:
– Sem as tropas era difícil ser fazendeiro serra-acima.
Serra abaixo haviam de ficar todos no litoral sem o ouro,
as pedras e os mantimentos. Sem elas as estalagens, os
pousos e os arraiais que pipocavam no rastro das passagens
não existiriam. Vilas iam rompendo ano a ano. Caminhos
de índios desembestando estradas. Com as tropas o leva e
traz notícias, costura fatos, arremata idéias e sonhos de
soberania. Sem elas o aldeão usurpado de agregação não
desenharia a pátria grande, continuada verde nação. Falava
galhofeiro sem a preocupação que ouvissem.
– Aqui e ali os caminhos bandeirantes quase perdidos,
sem vida nem alegria, nem novidades de notícias, mexericos
de jornais, de livros e seus autores novidadeiros. Custódio
olhava os companheiros e gritava ingerizado: – Sem as
tropas os ingleses nos engolem com casca e tudo.
Depois de adulto João rememorava esse tagarelar
entusiástico, às vezes até plagiando oratória:
– “Que alegre tintinambular me canta agora aos
ouvidos! Que lírico madrigal, cadente e argentino, vem
carrilhonando estrada em fora! Ah, é uma tropa. À frente
trota a madrinha com um colar de campainhas por peitoral.
Vem lépida, contente, estimulada pela doce música...
Embala-se, assim a alma com as suaves toadas de minha
infância... poética fantasia de tropeiros roídos de saudade
que, à noite, descantam nos arpejos da viola as suas
melancolias de eternos desterrados, e de dia sentem que o
jornadear é mais suave embalado pelo carrilhão sonoro,
...refrigério para a nostalgia.”
Levantava o sol e a tropa reunida outra vez se punha
a caminho ao bimbalhar dos cincerros e guizos da madrinha
ataviada da cabeçada de prata, cilhas coloridas, sacudindo
em trote batido os baús de couro tacheados de latão.
O patrão da tropa, Domingos, sempre na frente com
o primo José Maria, o menino João e os ajudantes mais
íntimos. Noites bem dormidas, justas e bem esquecido
cansaço. Mais léguas adiante medidas de paciência. Poeira,
pedregulhos, abrolhos seixos perdidos nas enxurradas.
Beiradas de mata fechada, sem beiras nos campos, nos
vazios imensos.
Madrugada escura partiam freqüente dois capangas
encarregados de abreviar as picadas, preparar as apeadas
e deixar avisos dos empecilhos se houvesse. Ou o que
houvesse, enchente, ponte caída. O madrinheiro e o tocador
ajuntados adiantavam a cozinha. Todos armados, mas
sabidos de morte certa em caso de traição. Não fossem os
clavinotes os assaltantes teriam levado as mulas dos
dianteiros. No calcanhar da tropa defendia o arrieiro, lenço
vermelho ao pescoço, botas de cano alto, cinta de couro
larga onde guardava a faca e o revólver. De confiança
suprema todos.
Era embicar num povoado e se pavoneavam os
vaqueiros a espantar rotinas, sacudir lenços e chapéus
redondos de couro curtido e suado de tanto sol. Rinchos
das mulas, berrantes louvando a povoação, as mulheres
nas janelas espia não espia.
– “Tocado bate no couro e a mula urra também”,
cantarolava um.
O arrieiro se deschapelava à direita e à esquerda,
chapéu bracarense de abas largas, sorridente e mesureiro
no seu cavalo arreado com apuro. Domingos e José Maria
iam discretos, levavam muitos valores, eram estrangeiros,
preferiam não chamar mais atenção do que as centenas de
bestas já despertavam.
Custódio, conhecido de todos, vestia lenço de seda
no pescoço atado com um anel de ouro e botas lustrosas,
nos calcanhares retiniam as esporas de prata.
No cabeção de sua sela faiscava uma longa corrente
de prata prendendo o “guampo” de chifre, cantil exótico
comprado no Sul, que lhe permitia beber água mesmo
montado. Tinha suas indumentárias prediletas e exibia. João
vestia a miniatura das tropearias. Luxos de Sorocaba. Menino
esperto enxergava olhares e não esquecia.
Tropas encontravam-se pelos caminhos. Cada uma
formando um lote de sete burros e cada burro carregando
até oitenta quilos. Era o usado. Domingos preferira formatar
a alimária em vários lotes. O amontador, acostumado com
os animais bravios, comandava as centenas de cabeças
avulsas levadas para vender pelas estradas do sertão,
seguido pelo arrieiro que assim satisfazia a vaidade e gosto
de mostrar o seu chapéu bracarense em mesuras de tira e
põe.
Nas margens do Rio Grande apanharam os cavalos
de raça. Nestes Domingos, Custódio e José Maria
cavalgavam por quilômetros comedidos, aproveitavam as
trilhas altas e seguras. Nem cansavam os animais, nem os
mimavam em demasia. Soberbos os eqüinos sobressaiam
à tropa de burros rudes trotando desde Viamão.
Na Serra das Vertentes, entre grotas disfarçadas por
capão de mato, foram acuados por bandidos. Serventia de
experiência quilombola Adeulino os livrou de peçonha
maior, de susto mordido no peito. Apanharam rumo nos
afluentes do São Francisco, esqueceram as tocaias da
Mantiqueira. Contornavam os escarpados abruptos da Serra
do Espinhaço. Espigão abrolhado de seixos roladores
ameaçando o equilíbrio dos animais pelas ladeiras
pedregosas despencadas serra abaixo. A romagem ia lenta,
carecia cuidado. Olhos d água rareavam já. Riacho havia,
seguiam por eles, ora por margem de rio garantia de água,
de peixe e caça.
Nas Gerais saudaram o gosto do sol quente, noites
frias nos cerrados do sertão de mato ralo, sem os embaraços
de floresta virgem. Deixaram as veredas no poente, torcendo
para o Leste nas trilhas de Espinosa. Subiam em direção da
Bahia.
Os tapuias abandonaram ameaças. Persistiam as terçãs
malignas, febres palustres, a maleita. Era cuidar e contar
semanas para estar em casa.
Ainda em Minas foram alguns da tropa acometidos
da febre intermitente do Rio Jequitahy. Não obstante a
febre continuaram a viagem em busca do vilarejo de Grão
Mogol, esperança de recursos médicos. Faltavam oito léguas.
Chegaram à familiar Fazenda Rocinha do amigo Coronel
Domingos Soares. Recebidos com alegria em casa mais
seria se não fosse o lastimável estado dos enfermos.
Ligeiro o Coronel tomou as providências que o caso
exigia. Despachou um portador à Vila a carrear remédios.
Domingos e José Maria eram os doentes em estado mais
grave. Antes mesmo de chegarem os socorros Domingos
José foi acometido de mais forte acesso. Não resistiu. Faleceu
no dia 16 de março de 1869.
Em enterro solene, acompanhado de vaqueiros,
berrante soando triste, chapéus nas mãos, lenços e gestos
fúnebres sepultaram o patrão em Grão Mogol, nas Minas
Gerais.
O Coronel Soares, depois das providências tomadas,
chamou a si os cuidados com a tropa e despachou um
portador para Caetité, distante cinqüenta léguas. Travessia
ingrata de galope angustiado afim de avisar a família.
João assistia a tudo. Chorar não, recomendou-lhe o
pai. Sofria. Longe de casa obedecia, escutava e espiava as
idéias de todos. Assustados seus olhos azuis cresciam junto
com a despedida. Cresceram mais quando o primo José
Maria em ato de desespero engulosou de frutas proibidas
e também morreu. Compreendia que estava só.
João acompanhou os enterros da sua infância. O
Coronel chamou-o, sentou-o no escritório. Falou-lhe como
a um adulto:
– Seu pai foi meu amigo. Sossega nesta casa até que
os seus tios venham buscá-lo.
– Fico agradecido, senhor. Dei ordens a Enedino,
filho de Sadoc, escravo de confiança de meu pai, para que
cuide da tropa. Queremos perturbá-lo o menos possível,
respondeu-lhe João, como se igual fosse.
Soares, respeitoso, apertou-lhe a mão.
O portador levava a dor galopante do menino escrita
em carta que só mãe lê. Dor, memória agravada, cicatriz
permanente forjando o caráter e os comportamentos.
João, que era também Fernando, o nome de Santo
Antônio, rezou o que sabia, engolindo sentimento que
menino homem não mostra, enquanto esperava os tios e
contava léguas, dias, noites de lua minguante, crescente,
lamparina apagada chamando o sono, o tempo passar mais
corrido, dia olhando longe, esperava notícia demorada,
saudade da mãe, de colo morno.
Engolia idade, medo, fragilidade.
Enguele lembrava:
– A notícia chegou. Meus irmãos seguiram para Grão
Mogol, Manuel Faria e Francisco Fernandes Pereira.
Ansiedade crescente angustiava o desamparo abraçando
minha viuvez. A orfandade dos meus filhos doía a
insegurança do inesperado futuro a abrir-se em abismo de
lembranças de Domingos José a discorrer morgadios,
iniciações, como se adiantando presságios.
Contaram-me que o Coronel Soares lhes entregou a
tropa, o numerário, os bens, os mesmos jaezes das
montarias, alguns de prata, esporas, trastes miúdos e
maiores. Custódio, com febre ainda a queimar-lhe as
entranhas, buscara os minguados recursos possíveis em
Montes Claros.
Pus-me à porta a esperar. Avistei, antes de ouvir o
tilintar dos cincerros, a madrinha à frente. Sem ornatos ou
fitas. Apenas duas botas dependuradas balançavam
acenando um adeus.
João Fernando abraçou-me. Seus olhos azuis me
trouxeram a luz que adquirira nesses poucos meses antes
dos seus sete anos.

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